VERÃO DANADO –  O VAZIO QUE O CINEMA PREENCHE DE BELEZA

Autor: Claudio Azevedo Fonte: Cinema 7ª Arte

VERÃO DANADO –  O VAZIO QUE O CINEMA PREENCHE DE BELEZA

Com direito a uma menção honrosa do júri no festival de Locarno, o mais recente filme do jovem cineasta Pedro Cabeleira mostra como o cinema português emergente está vivo e recomenda-se.

A história foca-se na vida de Chico (Pedro Marujo), recém-licenciado em Filosofia, que encontra agora um mundo que não o quer muito abraçar, mas em compensação, encontra outro onde os abraços abundam.

É no interstício que existe entre estes dois mundos onde Chico habita, entre o corpo maquinal que envia currículos e o corpo rebelde que quer absorver da vida todos os prazeres; no filme, o primeiro é apenas suposto e o segundo é mostrado, uma vez que o compromisso de enviar currículos e de fazer entrevistas é deixado no ar, acabando sempre por comandar a vontade soberana que procura a próxima festa. As pessoas que Chico vai encontrando pelo caminho vão dançando num mesmo ritmo de memórias voláteis, de incertezas futuras e encontros fugidios. Com mulheres, ora se apaixona ora se desapaixona, e se num segundo há alegria no outro aparece sempre alguma tristeza ou frustração, que acaba sempre por fechá-lo num ciclo onde acaba por reinar a solidão.

Num primeiro olhar sobre o filme, vemos representada uma juventude perdida, que se entregou a uma vida boémia, que está pronta a relegar para segundo plano as questões profissionais, que por força da conjuntura atual, teimam em ser apenas mais uma das muitas frustrações que acometem a juventude de hoje. Mas, o brilhantismo do filme está na forma como o realizador inverte este aparente sentido moral, do retrato de uma juventude sem norte e, através da sua estética visual particular, repleta de psicadelismo, cria uma roupagem que dignifica estes corpos, que se tornam matéria sensível para uma experiência visual e sonora. Se o mundo social parece não deixar espaço para eles, através do cinema eles são salvos, em cada instante do tempo, na plasticidade de cada frame, em cada luz que pisca, em cada cor que muda, em cada som que vibra.

Os tempos da arte moral e representativa acabaram, hoje são filmes como este –  ou como os de Pedro Costa -, que assumem uma intensificação estética que pretende subjugar os moralismos fáceis, que andam sempre de mão dada com as formas de pensar cristalizadas da sociedade. Aqueles que vivem à margem começam a ganhar um lugar pelo poder democrático das artes, que já nada querem saber sobre o estatuto social dos modelos a representar. Os corpos deixam de ser cerebrais, sedentos de verdade e história, para se tornarem matéria moldável, que vive, desde sempre, consubstancializada com a paisagem natural de onde saiu. Uma palavra humana é igual a um som de uma música que é igual a um feixe de luz, que por sua vez é igual a um corpo. Tudo o que existe possui a eterna potência da beleza – e o cinema sabe bem disso!

Pedro Cabeleira é um nome a termos em atenção. É admirável o que conseguiu, numa primeira longa-metragem e com tão baixo orçamento. É visível já uma identidade, que promete um cinema dinâmico e vivificado, num estilo irreverente e cativante.

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