Sobre o projeto

Belle” conta a história real de Dido Elizabeth Belle, filha de um capitão britânico da Marinha Real e de uma escrava, criada e educada pelos tios no seio de uma família aristocrata, tendo, no entanto, de cumprir certas regras de convívio aquando na presença de convidados por ser mulata.

Não deixa de ser curioso que, ao crescer numa família que a ama e que nunca a trata de forma inferior – apesar de seguir determinadas regras sociais da época – Dido nunca se sinta verdadeiramente integrada como pessoa e como mulher. Trata-se de uma história verídica que acontece num período sensível em que a promessa da abolição da escravatura começava a fazer-se soar nas ruas pelos mais corajosos e diligentes de acções morais.
Assim que se torna adulta, Dido começa a questionar o tom de pele que herdou da mãe e os valores do tio que a criou, ao mesmo tempo que começa a entender a diferença entre compromissos maritais e o verdadeiro amor.

Gugu Mbatha-Raw é a actriz que interpreta Dido e quem nos leva a conhecer de forma simples e realista um período onde as mulheres eram apresentadas à sociedade como “mercadorias”, avaliadas e escolhidas consoante os benefícios financeiros que podiam oferecer aos homens que passariam a ser seus maridos e “donos” – um cenário que corre em paralelo com a decisão de criar leis que defendam a igualdade dos seres humanos, sejam eles de posição alta ou baixa, brancos ou negros, homens ou mulheres.
Apesar de temáticas raciais que ainda têm peso nos dias de hoje, “Belle” é acima de tudo uma história de amor que ultrapassa as barreiras da desigualdade e injustiça.

Sobre a utilização

Saturados com a lógica de cinema de estúdio, um grupo de dinamarqueses criou uma placa de mandamentos para uma nova forma de se fazer cinema, estabelecendo um conjunto de regras onde se poderia privilegiar o trabalho de ator e dramaturgia, em vez do demorado atraso inerente a um set up de uma cena com equipas de dezenas de pessoas inscritas dentro duma hierarquia, cada um a puxar para a sua tarefa infinitésima e contribuindo para uma qualquer perfeição cinemática racional, duma razão à qual não quiseram obedecer. 

Seja uma nova vaga de fadiga com a história passada ou simplesmente uma simplificação de um método para apurar aquilo que realmente interessa, o que é fato é que nos exemplos mais mediáticos, como foram "Os Idiotas" de Lars Von Trier e "A Festa" de Thomas Vinterberg, atingiu-se uma qualidade fresca sob uma estética aparentemente rudimentar, provocada por regras como a câmara à mão, a não-utilização de luz artificial ou filtros óticos, e a obrigatoriedade de filmagem no local e som direto (gravação do som durante a rodagem). É fato que ao esquecer estes dogmas do arco da velha se podia ganhar mais tempo para a discussão e a compreensão do que que se estava a fazer. Importa dizer que anos mais tarde tanto Von Trier como Vinterberg, autores do Manifesto que começou o movimento, admitiram que não tinham sido sempre completamente cumpridores das suas regras, e qual é o problema?  

Balizaram uma ideia para propagar outras, tratando temas tão delicados como a repressão de um segredo no seio de uma família durante anos onde o aparecimento da verdade surge numa alta festividade burguesa - onde ninguém quer de facto acreditar no que está a ouvir, acusando o delator de loucura. Não é apropriado arriscar a boa manutenção da festividade ou da satisfação comum em nome de histórias que só possam trazer tensão ou desconforto. Essas sensações não são bem vindas em torno de uma mesa onde a perpetuação de uma ilusão opulenta é muito mais importante que os assuntos internos de um núcleo familiar do pai aniversariante que sendo ele o anfitrião, não pode senão negar, sorrir e erguer uma taça na esperança da resolução. Evitando o spoiler, é resumida esta obra de Vinterberg, “A Festa”, como um olhar aos lugares mais escuros e irreconciliáveis de famílias que guardam segredos trágicos, e do quão insólito é o comportamento de uma classe supostamente "bem educada".

Já em "Os Idiotas”, o tema aproxima-se mais do mau trato que a sociedade tem com a comunidade de deficientes e da vontade de um grupo de amigos de proceder a uma investigação sobre eles mesmos, onde possam aceder a uma outra verdade pessoal através do jogo e imersão noutra versão de si próprios, de idiotas. É a perda da razão quotidiana ou do formato correto de comportamento para o aparecimento de outra coisa, de algo mais autêntico. Tanto num filme como no outro, as barreiras do conforto do espetador são quebradas de uma forma onde já não estamos a ver um filme, mas a participar em algo documental porque os atores são agora pessoas a fazer atos concretos e a descobrirem emoções reais de medo e histeria.

Para concluir, importa dizer que o movimento Dogma 95 foi revolucionário na compreensão duma arte que estava a ficar cada vez mais esterilizada e sintética, na busca de uma perfeição que acaba por ser o seu contrário. 

Sobre as compras

Decorreu, esta quarta-feira à noite, a cerimónia de entrega dos Prémios Sophia no CCB. A Academia Portuguesa de Cinema distinguiu o melhor do que se tem feito no cinema português, atribuindo vários prémios a "Cartas da Guerra". O filme foi um dos mais vistos em Filmin, e voltará a estar disponível na plataforma brevemente.

Outro vencedor da noite foi o aclamado "Cinzento e Negro" que tem vindo a ganhar destaque em vários festivais e competições pelo seu argumento e banda sonora. Este filme de Luís Filipe Rocha também estará disponível em Filmin.

Segue a lista de prémios atribuídos ontem à noite:

Melhor Filme: “Cartas da Guerra” 

Melhor Ator Principal: Miguel Borges, “Cinzento e Negro”

Melhor Atriz Principal: Ana Padrão, “Jogo de Damas”

Melhor Ator Secundário: Adriano Carvalho, “A Mãe é que Sabe”

Melhor Atriz Secundária: Manuela Maria, “A Mãe é que Sabe”

Melhor Argumento Original: Luís Filipe Rocha, “Cinzento e Negro”

Melhor Argumento Adaptado: Ivo M. Ferreira e Edgar Medina, “Cartas da Guerra”

Melhor Realizador: Ivo M. Ferreira, “Cartas da Guerra”

Melhor Direção de Fotografia: João Ribeiro, “Cartas da Guerra”

Melhor Direção Artística: Nuno G. Mello, “Cartas da Guerra”

Melhor Maquilhagem e Cabelos: Nuno Esteves “Blue” e Nuno Mendes, “Cartas da Guerra”

Melhor Som: Ricardo Leal e Tiago Matos, “Cartas da Guerra”

Melhor Guarda Roupa: Lucha D’Orey, “Cartas da Guerra”

Melhor Montagem: Sandro Aguilar, “Cartas da Guerra”

Melhor Banda Sonora Original: Mário Laginha, “Cinzento e Negro”

Melhor Canção Original: “Sob o Calor”, de Sérgio Godinho e Filipe Raposo, “Refrigerantes e Canções de Amor”

Melhor Documentário em Longa-Metragem: “Mudar de Vida, José Mário Branco, vida e obra”, de Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo

Prémio Sophia Estudante: “A Instalação do Medo”, de Ricardo Leite

Melhor Curta Metragem de Ficção: “Menina”, de Simão Cayatte

Melhor Curta Metragem de Animação: “Estilhaços”; de José Miguel Ribeiro

Melhor Documentário em Curta Metragem: “Balada de um Batráquio”, de Leonor Teles

Prémio Mérito e Excelência: Ruy de Carvalho, ator

Guia Técnico

A carreira do russo Andrey Konchalovskiy é um caso de estudo, exemplo máximo da acção do improvável. De Andrei Tarkovsky (que foi seu colega na VGIK e com o qual colaborou e co-escreveu os seus três primeiros filmes) a Sylvester Stallone e Kurt Russell em "Tango & Cash" (1989), a obra do cineasta (irmão de Nikita Mikhalkov) é possivelmente uma das mais invulgares na história do cinema. Membro de uma nova geração de cineastas russos que começou a fazer cinema nos anos 1960, o realizador vira-se para Hollywood nos anos 1980 e lá realiza alguns dos mais marcantes filmes de acção da década, regressando depois à Rússia e ressurgindo nos anos 2000 como grande cineasta-autor. Venceu, no festival de Veneza, o Grande Prémio do Júri com "Dom durakov" (Casa de Loucos, 2002) — o último filme seu a estrear em Portugal — e duas vezes o Leão de Prata pela Melhor Realização com "Belye nochi pochtalona Alekseya Tryapitsyna" (Postman’s White Nights, 2014) e este "Rai" (Paraíso, 2016).

O meu colega Luís Mendonça, na sua crónica Civic Tv, percorreu com bastante pormenor a carreira do realizador, e encontrou nalguns dos seus filmes um motivo comum que funciona como chave para compreender, pelo menos em parte, o seu olhar: a comunidade e o (seu) isolamento. Mas defronte de "Rai" é difícil integrá-lo nessa leitura. O mais recente filme de Konchalovskiy é um filme que vive, acima de tudo, montado num dispositivo formal cinéfilo. Parece-me, por isso, que outra chave para compreender a visão do realizador passa por ver cada filme seu, como a expressão do seu gosto pela matéria dos filmes (isto é, o próprio meio) e pelas suas potencialidades estéticas. Estou em crer que o que leva a obra de Konchalovskiy a tomar tantas e tão diversas formas (a “intrumentalizar-se” até, quando é necessário, às meta-personas fílmicas de Stallone e Russell, como refere o Luís) prende-se com o facto de para o russo o cinema, como expressão, não dever desprezar todos os estilos, géneros, meios de produção, formatos, suportes e tudo mais.

Por isto, em "Rai", o trabalho extraordinário do director de fotografia Aleksandr Simonov faz conviver tanto os 35 mm, como o 16 mm e até o Super8 — sempre em preto e branco, e tudo vertido em digital para a exibição comercial. E também por isto, Konchalovskiy faz conviver as talkings heads dos documentários convencionais com a reconstituição de época altamente coreografadas e pormenorizadas, mas também com o falso found footage, com os rolos de filmes caseiros e com certos enquadramentos que remetem para modernas câmaras de vigilância. Esta explosão de estilos e suportes materializa essa sua convicção, que me parece ser fundacional na sua obra, de que no cinema todas as formas são igualmente válidas. E fá-lo numa estranha ode ao cinema dos anos 1940 (do período da guerra, que é o centro narrativo do filme) que mima no formato (4:3) mas também em certas opções algo estizantes (como o facto de certas personagens serem dobradas — como eram no cinema clássico — sem se preocupar com a ligeira dessincronia que isso introduz). Mas essa ode é simultaneamente de um frieza rochosa e de um experimentalismo antigo (os falsos raccords e os saltos da película), vindo das ditas novas vagas cinematográficas.

Se o presidente do júri, Sam Mendes, terá ficado impressionado pelo arcaboiço formal da empresa de Konchalovskiy, certamente que a dureza do retrato do Holocausto (os horrores nazis, o desempenho de Yuliya Vysotskaya – mulher do realizador e sua actriz recorrente –, a descrição da vida nos campos — onde um maço de cigarro vale uma vida —, a demência da ideologia da perfeição ariana e a falência dos princípios dos colaboracionistas) terá igualmente deixado marca. Não querendo entrar no afamado debate entre os modos de olhar e dar imagem ao horror dos campos (deixo isso para Didi Huberman e Claude Lanzmann) nem pretendendo comparar Rai como a desconstrução da homogeneização turística dos lugares do passado feita por Sergei Loznitsa em Austerlitz (2016), descubro no filme de Andrey Konchalovskiy uma flutuação de tom com a qual é difícil de lidar (dado o tema). A certa altura há uma personagem que explica como se apaixonou pelo seu marido quando o encontrou patético (num jogo de cabra cega), o próprio filme vive apaixonado por uma beleza sempre na vertigem do patético e do drama sempre à beira da paródia — não estivessem os diálogos, as situações e o próprio ritmo e estrutura narrativa embebidos por uma ironia muito seca.

Esta liberdade de, num filme sobre o Holocausto, deixar-se levar ao limite de um riso nervoso revela uma coragem rara, que tem como consequência os dois minutos finais onde (quase) se invalidam as duas horas anteriores. Mas lá está, só um cineasta que acredita na equivalência de todas as formas de expressão com imagens em movimento pode deixar-se levar por elas e nelas se deixar embrulhar.

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Festival de Cannes 2017: Programação Oficial

Desenrola-se o tapete vermelho. A ilustríssima 70ª edição do Festival de Cannes que terá lugar entre 17 e 28 de maio, anunciou hoje a programação oficial.

Nomes esperados como os de Andrey Zvyaginstev, Lynne Ramsay, Michael Haneke, Hong Sang-soo, Sofia Coppola, Bong joon-ho, Yorgos Lanthimos, Arnaud Despelchin (em abertura), David Lynch (com os primeiros dois capítulos de “Twin Peaks”), Todd Haynes ou os irmãos Safdie.

Mas também alguns nomes menos esperados como Alejandro G. Iñárritu (com um projeto de Realidade Virtual) e Kristen Stewart (como realizadora e em evento especial), serão quem daqui a pouco mais de um mês vamos ver desfilar pela Croisette.

Por enquanto há apenas 18 filmes em competição, a diferença dos habituais 20, por isso ainda se esperam surpresas de última hora.

São já muitas as surpresas deste ano: desde a televisão até à realidade virtual, algumas escolhas intrigantes de não-ficção e alguns nomes desconhecidos que puxam Cannes para uma direção nova e fresca.

Entre as ausências mais destacadas, o esperado “Zama” da argentina Lucrecia Martel (devido ao facto do seu produtor, Pedro Almodóvar presidir o júri oficial), e a ausência dos estúdios de Hollywood. Nenhum filme da Sony, da Universal, Warner Bros., nem da Fox.  Ausente também, a representação do cinema português.

Veja a seguir a programação oficial:

FILME DE ABERTURA

LES FANTÔMES D’ISMAËL de Arnaud DESPLECHIN


SECÇÃO OFICIAL - COMPETIÇÃO

LOVELESS de Andrey ZVYAGINTSEV 

GOOD TIME de Benny SAFDIE & Josh SAFDIE

YOU WERE NEVER REALLY HERE de Lynne RAMSAY

L’AMANT DOUBLE de François OZON

JUPITER’S MOON de Kornél MUNDRUCZÓ

A GENTLE CREATURE de Sergei LOZNITSA

THE KILLING OF A SACRED DEER de Yorgos LANTHIMOS

RADIANCE de Naomi KAWASE

THE DAY AFTER de Hong SANG-SOO

LE REDOUTABLE de Michel HAZANAVICIUS

WONDERSTRUCK de Todd HAYNES

HAPPY END de Michael HANEKE

RODIN de Jacques DOILLON

THE BEGUILED de Sofia COPPOLA

120 BATTEMENTS PAR MINUTE de Robin CAMPILLO 

OKJA de Bong JOON-HO

IN THE FADE de Fatih AKIN

THE MEYEROWITZ STORIES de Noah BAUMBACH


FORA DE COMPETIÇÃO

BLADE OF THE IMMORTAL de Takashi MIIKE 

HOW TO TALK TO GIRLS AT PARTIES de John Cameron MITCHELL

VISAGES, VILLAGES de Agnès VARDA & JR


PROJEÇÕES DE MEIA NOITE

THE VILLAINESS de JUNG Byung-Gil

THE MERCILESS de Yeon Sang-Hon


PROJEÇÕES ESPECIAIS

AN INCONVENIENT SEQUEL de Bonni COHEN & Jon SHENK

12 JOURS de Raymond DEPARDON

THEY de Anahita GHAZVINIZADEH 

CLAIR'S CAMERA de Hong SANG-SOO

PROMISED LAND de Eugene JARECKI

NAPALM de Claude LANZMANN

DEMONS IN PARADISE de Jude RATMAN

SEA SORROW de Vanessa REDGRAVE


UN CERTAIN REGARD

BARBARA de Mathieu AMALRIC

LA NOVIA DEL DESIERTO de Cecilia ATAN &Valeria PIVATO

TESNOTA (ÉTROITESSE / CLOSENESS) de Kantemir BALAGOV

BEAUTY AND THE DOGS de Kaouther BEN HANIA

L’ATELIER de Laurent CANTET

FORTUNATA (LUCKY) de Sergio CASTELLITTO

LAS HIJAS DE ABRIL de Michel FRANCO

WESTERN de Valeska GRISEBACH

POSOKI (DIRECTIONS) de Stephan KOMANDAREV

OUT de Gyorgy KRISTOF

BEFORE WE VANISH de Kiyoshi KUROSAWA 

THE NATURE OF TIME de Karim MOUSSAOUI

LERD (DREGS) de Mohammad RASOULOF

JEUNE FEMME de Léonor SERRAILLE

WIND RIVER de Taylor SHERIDAN

AFTER THE WAR de Annarita ZAMBRANO


EVENTOS ESPECIAIS

TWIN PEAKS de David LYNCH 

24 FRAMES de Abbas KIAROSTAMI 

COME SWIM de Kristen STEWART 

TOP OF THE LAKE: CHINA GIRL de Jane CAMPION & Ariel KLEIMAN


REALIDADE VIRTUAL

CARNE Y ARENA de Alejandro G. IÑÁRRITU