VERÃO DANADO: Uma viagem pelo limbo sensualista da noite lisboeta

Autor: Cláudio Alves

VERÃO DANADO: Uma viagem pelo limbo sensualista da noite lisboeta

Sob o sol abrasador de um verão português, Lisboa é uma cidade que dorme de olhos abertos durante o dia. De ressaca ou em antecipação de mais uma festa, em que se podem perder a si mesmos na multiplicidade humana de corpos em transe, jovens deambulam sem rumo pelas suas ruas. À noite, no entanto, a folia desabrocha em festas e serões passados entre amigos embriagados, a cidade e seus jovens acordam do sono diurno para uma noite de luzes coloridas e reveria hedonista. É este o mundo retratado na primeira longa-metragem de Pedro Cabeleira, Verão Danado. O filme já levou o jovem cineasta, recém-licenciado da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, até ao Festival de Locarno, onde ganhou uma menção honrosa. O filme ainda fez parte da competição oficial do LEFFEST, sendo agora distribuído nos cinemas portugueses antes de estar disponibilizado online pela FILMIN.

Interpretado por Pedro Marujo, o protagonista desta viagem cinematográfica à noite lisboeta é Chico, um estudante de Filosofia que agora vive no limbo pós-faculdade e pré-emprego. Tal suspensão efémera é irrevogavelmente reforçada pela proposta estival da narrativa, um retrato observacional do dia-a-dia de Chico durante o verão. O início dessa observação começa fora da capital, mas depressa o filme transporta o espetador para a casa que Chico partilha com três jovens, para um jogo de futebol feito durante o tempo que se podia gastar à procura de emprego, para o apartamento daquela que, inicialmente, parece ser a namorada do rapaz e para a casa de uma amiga, onde se organiza um jantar como prelúdio para mais uma noite nos copos. Embalado pela fotografia naturalista rica em câmara ao ombro de Leonor Teles, o espetador vai sendo soporificamente hipnotizado pelas primeiras cenas de Verão Danado, mas o pôr-do-sol traz consigo uma injeção de vitalidade até aí ausente.

Parte desse despertar noturno deve-se à introdução de uma dinâmica que o filme raramente abandona para o resto da sua duração. Referimo-nos à observação de grupos de pessoas em comunhão ébria, um retrato coletivo que tem vindo a facilitar uma leitura do filme enquanto retrato geracional. Pela sua parte, o realizador já se manifestou, em entrevistas, contra tal interpretação da sua obra. O filme certamente transpira uma especificidade individualista que tenta invalidar visões de uma sinédoque da juventude portuguesa em tempo de crise. Contudo, também é complicado negar a presença fantasmagórica desse julgamento meio moralista, inexistente num discurso intencional dos seus criadores, mas facilmente projetado pelo espetador e sustentado pela deliberada amorfia estrutural do filme, que é tão repetitivo e sem rumo como as vidas nele cristalizadas.

Talvez seja mesmo a apatia amoral da obra que consegue por termo a tais questões de juízos subentendidos, reforçando também o simples propósito da observação passiva e imersão sensualista. Na verdade, desde este primeiro jantar na casa de uma amiga de Chico, que Verão Danado se torna numa espécie de documentação cinematográfica da sensação de se estar inebriado, meio hipnotizado pelo tédio e constantes estímulos sensoriais de uma festa, onde não se conhece mais nenhum convidado. Ainda para mais, Chico vai-se progressivamente afirmando como um esboço, uma figura cifra que deambula, ao mesmo passo que as figuras secundárias tendem a manifestar-se enquanto pessoas com vidas autónomas. Elas existem para além dos limites da composição e, especialmente, muito além do olhar de Chico, que pode ser o nosso bilhete de acesso a este mundo, mas está longe de ser a atração principal da viagem.

O elenco, principalmente composto por estudantes recém-licenciados da mesma escola do realizador, é muito responsável por esta impressão. Talvez interpretando variações de si mesmos ou criações perfeitamente originais, os atores aqui reunidos pelo realizador sustentam o jogo naturalista edificado sem denotarem sinais de esforço ou desnecessário dramatismo. Por exemplo, Cleo Tavares, no papel da amiga de Chico que organiza o jantar da primeira noite de Verão Danado, sugere, em pouco mais do que meia dúzia de olhares embebidos de significado, toda uma interioridade existente na periferia do filme. O momento em que tal jogo de olhares chega ao seu auge é um dos mais belos de Verão Danado, sombreando uma imagem de colorida festividade com uma mini tempestade emocional fora do alcance do espetador e do próprio protagonista, envolto na ignorância concedida pela impetuosa priorização dos seus desejos imediatos acima de qualquer outra preocupação.

Essa é somente uma vinheta entre muitas, onde uma Lisboa cheia de tentações serve de pano de fundo. Na noite seguinte, Chico está de volta à espiral de perdição hedonista, naquela que é, sem sombra de dúvida, a melhor sequência do filme e, muito provavelmente, o grande píncaro do cinema português de 2017. Esta festa noturna é um espetáculo de cor e movimento com passagens de languidez ritmicamente quebrada por impulsos sónicos. Aqui, o erotismo efémero de corpos, tão intoxicados que o teatro social deixa de ser algo presente, é facilmente interrompido pelo fascínio visual da chama de um isqueiro ou pela visão da pele feita rubra pela iluminação na pista de dança. Por vezes, até a câmara se parece distrair com os estímulos em seu redor, como que espantada pelas luzes coloridas que pintam paredes, tetos, chão e corpos.

Todos os elementos do filme trabalham em gloriosa simbiose nesta sequência, tão rica em casual virtuosismo como em prazer sensual. O som apoia-se em gestos de aglutinação e amorfia sónica, tanto mergulhando o espetador na batida da sua eclética seleção musical como destacando uma falta de claridade que rebenta em silêncio e sugere uma rendição onírica. A montagem de Rúben Gonçalves também conjura a reveria de um sonho, algo erótico e semelhante a uma memória enevoada pela intoxicação passada. Só sobram assim impressões de luzes, corpos, toques e pessoas, cuja movimentação pelo espaço limitado viola a materialidade desse mesmo ambiente. Em suma, para quem for fã de grandes cenas de festa em cinema, têm aqui um novo nome para juntar aos mestres Sorrentino, Coppola, Luhrmann, Dolan e companhia limitada.

Nesta festa, até uma conversa entre homens mocados na fila para a casa-de-banho consegue tornar-se numa pequena joia cinematográfica, com as frechas na arquitetura de corpos masculinos em primeiro plano a revelarem um olhar feminino e carregado de desejo no fundo desfocado. É impossível cair em juízos de valor em relação ao hedonismo das personagens, pois a própria experiência de ver Verão Danado é algo eletrizado pelas sequências noturnas. Por que razão é que alguém poderia querer acordar deste sonho? Por que razão quereria o espetador abandonar estes momentos de imersão sensorial para mais uma vez enfrentar a luz do dia e as preocupações que veem ao de cima, quando o álcool já deixou o corpo e a ressaca começa a mostrar a cara?A imagem final de Verão Danado e da terceira noite de Chico, onde a própria forma do filme derrete num transe de abstração, quase oferece uma resposta cautelosa e inconclusiva a tais questões. Referimo-nos à dança febril de alguém que se mexe com ferocidade desesperada, que transcende a folia da festa e indica, pela primeira vez, que este sonho se pode facilmente tornar num pesadelo de movimento enlouquecido e total imobilidade. Até aos seus derradeiros momentos, Verão Danado vive na ideia do imediato, contrabalançada pelo tom e fragilidade de uma memória. O prolongar, a repetição e o modo como som e imagem vão caminhando gradualmente na direção dessa final instância de movimento sem razão ou rumo, acaba por criar assim uma espécie de gesto hipnótico, tão desprovido de juízos como de genuína alegria. No final, sentimos a insustentabilidade da noite hedonista, mas ela leva-nos no seu feitiço e nada podemos fazer para resistir.

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