Veneza75: Ryan Gosling viveu em Veneza o seu ‘space oddity’
O Primeiro Homem na Lua - Filme de abertura (competição)
O'Golem (VeniceClassics)

Damien Chazelle e Ryan Gosling fazem um novo ‘pas de deux’ em Veneza, dois anos depois do muito badalado e multipremiado La La Land. Com um filme fulgurante e uma vez mais destinado a atingir as estrelas. Ainda que agora a dança seja outra. Apesar de não estar totalmente afastada. Não só pelos ecos que toda essa aventura espacial mereceu da cultura pop, desde logo com o lançamento do single de David Bowie, Space Oddity, apenas uma semana antes de Neil Armstrong saltitar na lua. Mas também por a sua biografia oficial, de 2005, First Man: The Life of Neil A. Armstrong, James R. Hansen, relatar o rema ‘Lunar Rhapsody preferido do casal. Ou até, se quisermos, pela dança de câmara com que o realizador acompanha o dramatismo das cenas. Seja nas mais intensas sequências de ação, normalmente nos cubículos das naves, mas ainda em algumas sequências familiares. É muito por aqui, nesta gestão do lado histórico, na verteste realista da época, e ainda a emoção humana que o filme sobe às estrelas.
Tal como o próprio já referiu, O Primeiro Homem da Lua foi também o primeiro projeto que Chazelle anunciou a Gosling. E sim, desta vez, o menino de 33 anos consagra o mesmo cinema que deseja ser visto e ter público, com uma presença muito forte do cinema de aventura, mas que nos convida a entrar. Mesmo correndo o risco do déjá vu, Damien acaba por sair por cima de quase todos os ‘obrigatórios’. Desde logo, uma homenagem a Os Eleitos, de 1983, de Philip Kaufman, uma vez que percorre parte desse período, embora sem prestar vassalagem. De resto, fica uns furos acima do Apollo 13 de Ron Howard e mesmo de Gravidade, de Alfonso Cuarón. Já Kubrick pertence a outra estirpe e nem o seu lado mais filosófico faz parte das suas intenções.
É claro que o canadiano Gosling é a escolha inevitável, já a britânica Claire Foy no papel da esposa de Neil é uma ótima surpresa, mesmo que no papel submisso das mulheres da altura. Ainda assim, fascina pela forma como contém a emoção e a gere em lume brando. Apesar da seleção e gestão do cast ser de uma forma geral irrepreensível, sobra ainda espaço para atentar no detalhado trabalho de câmara.

Curiosamente,no serão de ontem, em jeito de pré-abertura do festival, com a exibição de um dos primeiros super-heróis, no filme mudo O'Golem, de 1920, de Paul Wegener, em cópia irrepreensível com transcrição em 4K, retivemos uma frase que talvez se pode aplicar ao filme de Chazelle. Por sinal, um filme acompanhado com o mais belo acompanhamento musical que já ouvimos. Dizia o diretor da cinemateca de Bruxelas, responsável por parte desse trabalho meticuloso em combinar a película de dois negativos e outros tantos excertos, que ouvira ao belga Luc Dardenne a melhor expressão para classificar o trabalho de restauro. Dizia ele, citando de cor, que “o restauro não é mais do que a recuperação da emoção que o realizador quis criar da época”.
É que talvez este O Último Homem da Lua pode até ser visto como isso mesmo, uma espécie de restauro, do trabalho sobre o mesmo tema que já foi feito. Mas agora melhor, pelo menos com melhores condições para contar a mesma história. Já Paulo Baratta, o Presidente da Bienal de Veneza, saudou o filme e as diversas conotações sobre o medo e as perseguições, declarando que “os fantasmas regressam quando temos necessidade deles”. Por sua vez, o diretor artístico do festival, Alberto Barbera, enalteceu a qualidade estética de um filme que acabava por trilhar uma das primeiras formas artísticas da linguagem cinematográfica, essa forma de arte tão nova na altura. Antes ainda de Murnau e da...Marvel.
Tivemos ainda a presença de Vanessa Redgrave, que receberá um Leão de Ouro em homenagem à sua carreira. Ela que mais recentemente se assumiu como realizadora. Vimos em Cannes a sua estreia com o documentário Sorrow, infelizmente demasiado pueril na sua mensagem humanitária.
Masisso serviu também para ela fazer uma elipse com a sua própria vida, pois assumiu-se como “children of war”, refugiada no seu próprio país na eminência de uma invasão nazi. E assim lançou a farpa em direção do seu governo e não só. E recordou como Laurence Olivier disse uma vez em palco, “a star is born”,referindo-se a ela. Terminando a dizer “os meus compatriotas perceberam agora que o governo não percebe nada da política.”
O Primeiro Homem na Lua- ****
O'Golem- *****
Veneza 75: Suspiria faz-nos suspirar por Argento. Guadagnino mostra que é fã mas fica dividido pelo Muro
Nem sempre a ansiedade e a vontade de gostar é devolvida como se espera. Suspiria, versão Guadagnino, produzida pela Amazon Studios e exibida em competição aqui em Veneza, toma como referência o original de Argento de 1977, presta-lhe homenagem, mas o alegado terror “como nunca tínhamos visto”, como avisou o realizador, acaba bastante mitigado.
Cedo se percebe que o filme não funciona. Algo confirmando pela procissão de pessoas que foram abandonando a sala, talvez incomodadas pelo excesso que Lucas quis mostrar, embora sem rima do género. Valha-nos Tilda Swinton, igual a si própria, que faz o que pode como a Madame Blanc (papel que Joan Bennet desempenhou em 77), tal como Dakota Johnson faz o que pode (ou sabe), embora num papel insuficiente para apagar as suas manchas de um passado cinzento. Curioso notar como Jessica Harper, a Suzy de Argento, também aparece num papel especial, mesmo que isso não liberte o filme do seu falhanço, de nunca conseguir aproximar-se do original.
O filme até começa bem, intrigante com uma sessão de terapia que empurra o filme para horizontes mais vastos. E nos envolve também nessa Berlim dividida. Pelo Muro, mas também pelo ambiente de terror provocado pelo grupo armado Baader-Meihof. Nesse sentido, a composição musical, que substituiu Sufjan Stevens por Thom Yorke, a acentuar até o ambiente num tom próximo aos The Goblins e à sua música fantasmagórica, na linha de Tubular Bells. Só que depressa este movo Suspiria se perde entre numa narrativa ambiciosa que se revela difícil de concretizar, mesmo que não seja pela alternância do inglês e do alemão, da dança de Susie que provoca um encantamento macabro numa outra bailarina, que acaba num amontoado de membros torcidos, ossos e urina.
A dualidade impõe-se numa conjugação de dança entre terra e ar, bem como a invocação do passado negro alemão, até chegarmos às bruxas e aos seus elementos esotéricos Trevas, Lágrimas e Suspiros. Foi uma pena perceber como o filme ia perdendo o seu fôlego e ficando dividido entre si. Como o Muro de Berlim, com narrativas diferentes que nunca chegam a confluir. Como se tratasse de um mundo alternativo. Algo que se torna ainda mais paradoxal quando o filme parece evolui para um terror estranhamente próximo do ambiente truculento de Mãe de Aronofsy, o ano passado também em competição em Veneza. E a não é que acerta altura ouvimos mesmo: "I am the Mother!"?!
Guadagnino parece falhar porque complica algo que se baseava na simplicidade. Não só a linha narrativa, mas também o estilo e o rigor estético da iluminação garrida pelo efeito dos filtros. Só que mais de quarenta anos depois o horror que sobressai não assusta e apenas procura o extremo visual, paredes meias com o mau gosto, a envolver um conjunto de personagens mais ou menos perdidas ou à procura de uma linha narrativa. Ainda que algo se passe do outro lado. Como se estivesse, duas histórias dividias por um muro.
Pena que o autor do magnífico Chama-me Pelo Teu Nome, provavelmente o melhor filme do ano passado, que tão bem captou aquela memória e o naturalismo dos romances de verão, se espalhe num género que claramente não domina.
Classificação:**
Veneza75:Mike Leigh, Roberto Minervini e Olivier Assayas encaram a palavracomo arma que defende direitos
O festival ofereceu-nos já um trio de filmes que souberam tratar bem o poder da palavra. Desde logo no discurso fervoroso dos valores político sociais de Mike Leigh, no monumental e urgente Peterloo, mas também no filme de denúncia a preto e branco Whay You Gonna do When the World’s o Fire? do italiano radicado nos EUA, Roberto Minervini,. Ou até, finalmente,de uma outra forma, no vigor da oralidade do atualíssimo e preocupado Doubles Vies, do francês Olivier Assayas.
Para já, Peterloo, em produção da Amazon, foi recolhendo alguns rumores depreciativos, sugestões de tesoura para cortar meia horinha, ou até o lado mais pomposo, palavroso, discursivo. Um filme a evitar, asseguraram-me. Opiniões talvez passageiras de colegas fatigados que com o andar do festival terão, sabe-se lá, até passado pelas brasas. Felizmente recuperámos este autêntico monumento, um verdadeiro quadro em cada frame e cada cena devolvida por um cast extremo (a merecer no seu conjunto um prémio de interpretação) pela forma como recordou este episódio “pouco presente” na sociedade britânica.

WhatYou Gonna Do When the World's On Fire?
Roberto Minervini, o italiano que há muito escolheu os Estados Unidos para viver e fazer o seu cinema, acaba por daí retirar um cinema cada vez mais empenhado em sublinhar os cada vez mais acentuados desequilíbrios sociais fruto da globalização. Algo que se nota particularmente em What You Gonna Do When the World’s on Fire?, um filme com perfil de documentário – um pouco à semelhança dos anteriores Low Tide (2012), Stop the Pounding Heart (2013) ou The Other Side (2015), por sinal nenhum deles a merecer estreia nacional -, captado num contrastado preto e branco pela câmara de Diego Romero Suarez-Llanos. E tão vincado quando a mensagem difundida pelo grupo de elementos Black Panthers que se manifestam no início da fita.
Estamos dentro das comunidades pobres de New Orleans, onde vive a memória dos cidadãos negros tombados por balas na rua. Agora temos a denúncia e as palavras de Judy que insiste na memória que não se deve apagar. Tal como as canções e a celebração do mardi gras.

DoublesVies
De forma bem diferente, o francês Olivier Assayas sugere um discurso sinuoso e fascinante sobre o mundo da arte em geral e a encruzilhada do futuro da palavra impressa em particular. Tudo cozinhado em redor de múltiplas conversas entre amigos, em que se pesam o valor e impacto dos e-books, o peso dos blogs ou dos twitters. Uma questão bem pertinente, sobretudo bem gerida (leia-se bem escrita) e interpretada com brio por Guillaume Canet, a personagem vetor de editor livreiro, e filtrada depois por uma luminosa Juliette Binoche e um divertidíssimo Vincent Macaigne. Chegaremos depois onde interessa, talvez à comédia romântica, com o ganho do prazer da viagem.
E chegamos a Leigh. Ele que nunca abandonou um cinema engagé regressa ao massacre de Peterloo, em 1819, para falar do básico. Esses que já viviam os efeitos da Revolução Francesa, que deu o golpe final do regime absolutista, mas também da Revolução Americana. Nesse sentido, o filme tem até um lado pedagógico inegável, bem como um dedo acusador bem firme ao poder político da época que permitiu que uma manifestação absolutamente pacífica de perto de 100 mil britânicos na praça de St. Peter’s Field, daí o nome de Peterloo, para rimar com a recente vitória frente aos franceses em Waterloo. Eles vieram juntamente com a família para ouvir o discurso de Henry Hunt (um Rory Kinnear imperial) exigir representação popular no Parlamento, mas essa demonstração pacífica acabou por ser recebida por uma carga de cavalaria de sabres em riste. Consequência? Perto de duas dezenas de mortos e várias centenas de feridos.
É claro que pelo meio, Leigh não resiste a acentuar a mesquinhez das classes abastadas, dos proprietários, mas também dos magistrados capazes de aplicar penas bárbaras (e mesmo capitais) por bagatelas, que agiam com total liberdade e impunidade, podendo, por exemplo, suspender o habeas corpus por decreto. O que não retira uma pinga do seu mérito. E isto a acontecer muitas décadas antes de Marx e Engels escreverem o seu tratado de ciência e economia política.
Peterloo é um filme que vive da palavra, da exaltação, ainda que esta esteja devidamente ancorada nesses ‘quadros vivos’ captados pela câmara rigorosa de Dick Pope. E que apesar das duas horas e meia de duração, não se sente o peso de um frame a mais. Apenas o imenso respeito pelos desfavorecidos.
Peterloo- Classificação: *****
WhatYou Gonna Do When the World’s on Fire? - Classificação: ***
DoublesVies - Classificação:****
Veneza75: Depois dos quadradinhos dos manos Coen, Jacques Audiard aponta ao novo Oeste
O western marcou a sua presença em Veneza. Curiosamente, ou talvez não, pela mão da Netflix. Primeiro tivemos Ethan e Joel Coen a revelar uma certa mitologia do Velho Oeste, num guião alinhavado pelos dois irmãos e apresentado como um filme de histórias aos quadradinhos, ou episódios no apenas competente, embora aqui e ali divertido e sempre bem filmado, A Balada de Buster Scruggs, inicalmente pensado para ser uma série mas que permanecerá na versão mostrada no festival.
Respondeu depois o francês Jaques Audiard com The Sisters Brothers, embora aqui a apropriar-se do género para falar de outras coisas, como a introdução de uma certa visão positiva naquele mundo primitivo em profunda transformação. Digamos que os Coen dominaram o género,mas sem o enriquecerem. Isso fez Audiard, neste regresso depois do surpreendente triunfo em Cannes, em 2015 com Dheepan, ao apostar mais em conteúdo do que em estilo ou forma. Ainda assim sem impressionar verdadeiramente.
Em Buster Scruggs temos um Tim Blake Nelson, sempre divertido, a cantar baladas sobre a água no meio do Death Valley e a falar para a câmara como uma espécie de MC do tal livro juvenil de cowboyadas. Ele é o tal pistoleiro trovador com ar de pezinho mole que atira melhor que Lucky Luke (e a sombra dele). Há também um James Franco a reincidir em situações com a corda ao pescoço, há personagens amputadas, há o fantasma de Roy Rogers, de Liam Neeson, há Brendan Gleeson, há Tom Waits! Enfim. Tudo, tudo dividido em vários contos de poucos minutos, como as histórias que se contam à lareira.
Por aí vão os manos alinhavando as mais variadas referências do género, os diversos sub-estilos, evocando outros tantos clássicos.Na conferência de imprensa questionámos os manos realizadores sobre eventuais alterações depois de saberem que o filme seguiria para a Netflix. Não só pela tal introdução para a Câmara que funciona tão bem na intimidade com o espetador, mas ainda pela ideia da acção fraturada. Percebe-se a sensibilidade com que se aborda o tema Netflix, talvez por isso a resposta tenha sido frontal - esta foi sempre a nossa versão. E a única versão.
Na verdade, não deixa até de ter algum fascínio esta coleção de cromos. Quer tenhamos (ou vejamos) toda a coleção ou não. A questão é se chega realmente a ser um filme.

The Sisters Brothers
Por outro lado, ao vermos The Sisters Brothers não podemos deixar de sentir uma certa identidade de DNA com Buster Scruggs. Não só por relatar um novo conto do Oeste, mas sobretudo por percorrer esse mundo em transformação através do duo de pistoleiros, os manos Sisters, em que John C. Reilly interpreta o mais sensível e Joaquin Phoenix o mais duro e irascível. Sem necessidade de adiantar muito a história, o destino dos Sisters atravessa-se com o de um prospetor de ouro educado (Riz Ahmed) e do seu associado (Jake Gyllenhaal) acabando por formar uma insólita amizade.
Pena é que os aspetos laterais desta narrativa acabem por se sobrepor e tornar-se num elo mais interesse que a história, como a vontade de criar uma sociedade com valores democráticos. São elementos como estes, ou até a descoberta e o uso da escova de dentes de um mundo em transformação, que acompanham o grupo à medida que se vai deslocando pelo território. É por isto que o lado western acaba por sair algo mitigado, aliás como o próprio Audiard referiu, não é muito conhecedor de westerns e nem sequer tentou inventar o género. Ainda assim, acabou por referir A Sombra do Caçador, o único (mas bravo) filme de Charles Laughton, realizado em 1955.
Esta é uma viagem que entretém e que nos oferece algumas personagens coloridas, desde logo pelas particularidades de Reilly e de Phoenix, embora com mais dificuldade de alargar aquilo que já nos mostrou diversas vezes. Ou seja, sabe a pouco. A Sisters falta aquilo que sobeja em Scruggs (e vice versa) O melhor mesmo é apreciar a viagem que se faz história.
ABalada de Buster Scruggs - **
TheSisters Brothers - **
Veneza75: temos Julian Schnabel e László Nemes às portas da eternidade?
Às Portas da Eternidade é o título filme do artista Julian Schnabel com Willem Dafoe no corpo e na pele de Vincent Van Gogh. Mas pode também ser a segunda tentativa do húngaro László Nemes, em Sunset, igualmente em competição para o Leão de Ouro, em dar corpo e forma à obra iniciada com o portentoso O Filho de Saúl, premiado em Cannes em 2015, precisamente no ano em que Audiard ganhou de forma inexplicável com Dheepan, no que parece ter sido um voto de compromisso. Curioso é como todos se encontram este ano em Veneza. Terão abordado o tema?
Em todo o caso, temos dois casos de esforços artísticos. Pena é que Schnabel se tenha tentado em fazer uma espécie de bio do pintor holandês, mas que se fica por uma espécie de versão para totós. Pelo menos, é o que temos em boa parte do filme, dificilmente saindo da cartilha de clichés do género, aqui e ali optando por movimentos de câmara bruscos, o uso de lentes desfocadas, etc. Como se assim chegasse mais perto do tal conceito de Arte. A carta na manga fica mais para o fim quando o impecável Dafoe se revela numa versão crítica do pintor. Enfim. Poderá ser o rasgo de asa, mas nem por isso chega a voar.

Já em Sunset, Nemes opta pelo cunho autoral e mantém o estilo de Saúl agora numa Hungria nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. Aqui seguimos a rapariga que procura o passado da família de uma forma que reconhecemos. A câmara é a sua cúmplice e também quer saber. A diferença é que aqui não há catacumbas nem fornos crematórios.Tudo agora se passa no meio da delicadeza dos tecidos finos de uma chapelaria de classe de Budapeste. Afinal de contas o lado decorativo tão característico daqueles anos galantes em que uma Europa pomposa se preparava para se atirar de peito aberto para um interminável conflito das trincheiras.
Se pensarmos bem, é também esse elemento de descoberta que o húngaro vai exorcizando a memória dos seus antepassados trespassada por duas guerras. Também por isso dizemos que este Nemes merece ficar também às portas da eternidade.
At Eternity’s Gate - **
Sunset- ****
Veneza75: The Other Side of the Wind e o documentário irmão fecham o mito Orson Welles
Não passou em Cannes, passa em Veneza. Tem sido assim neste festival que abriu as portas para a Netflix, que assegurou a conclusão do ambicionado (e sempre adiado) topus de Orson Welles, The Other Side of The Wind, bem como o documentário de Morgan Neville, They'll Love Me When I'm Dead, e que é muito mais do que uma espécie de making of do filme, porque nos atualiza uma série de momentos de Welles muito pouco vistos, ou mesmo inéditos.

The greatest films are movies made of devine accidents, citará Orson Welles a certa altura. Ele que será quase tão famoso pelas suas obras-primas como pelos filmes que não concluiu ou não chegou a estrear em sala. Sobretudo depois de A Sede do Mal, que os produtores acharam "horrível". Em particular,o venerado The Other Side Of The Wind, iniciado em 1970, sobre os últimos momentos de vida de um realizador. Desde que a Netflix decidiu assegurar a conclusão do projeto naturalmente a curiosidade renasceu e foi mesmo dado como certo em Cannes, tal como The'll Love Me When I'm Dead, narrado por Peter Cummings, revela imagens de arquivo raras sobre essa derradeira rodagem, embora acabando por não chegar a um entendimento relativamente à política de exibição em sala. Este duo valioso acaba por ser assim mais um dos pontos fortes de Veneza e um braço da robusta presença da Netflix no festival italiano.
Na verdade, pode mesmo dizer-se que neste caso os dois filmes acabam por ser mais do que a soma das duas partes, já que o documentário aumenta em muito a descoberta deste filme esquecido. Já agora, expliquemos o título, ou ambos os títulos. Desde logo, They'll Love Me When I'm Dead ilustra a frase atribuída a Welles sublinhando a amargura de não ter podido trabalhar com a liberdade desejada e, sobretudo, ter visto parte da sua obra amputada, editada por outros ou, simplesmente, privada de apoios para ver a luz dos projetores . Tal como The Other Side Of The Wind será a forma como a companheira de Welles na época, a croata Oja Kodar, que vimos também em FFor Fake, o famoso e genial documentário de 1973, sobre a ilusão do cinema. Segundo ela, a figura imensa de Orson era tão majestosa como o próprio vento, mas poucos como ela conheceriam esse "outro lado do vento".

The Other Side Of The Wind
O que é curioso é perceber como este projeto começou, a partir da ousadia do fotógrafo Gary Graver que se insinuou a Orson Welles no hotel Beverly Hills, em Los Angeles, onde se encontrava, acabando mesmo por ser aceite como cameraman para esse projeto. "Esta é a segunda vez que um cameraman me contacta diretamente. O outro foi o Gregg Tolland", famoso DP de Citizen Kane e dos famosos célebres efeitos de profundidade de campo.
Juntos irão dar corpo a essas imagens em estilo docudrama, muito nouvelle vague,muito Antonioni, em que vemos um John Huston a dar corpo a um realizador, Jake Hannaford, à procura de finalizar o seu último filme... E Peter Bogdanovich a fazer de realizador, amigo e anfitrião de Welles e Oja durante vários meses. Muita gente passa pelo filme.Realizadores, vemos Claude Chabrol, Paul Mazurski, atores e até acrítica Pauline Kael a fazer o seu papel de fazer as perguntas difíceis ao realizador.
Mas essa é apenas uma parte, filmada a preto e branco, pois há o tal filme que Hanna Ford deseja concluir, a cores, em que a escultural Oja Kodar inunda a tela num exercício de liberdade e sexualidade. Na verdade, uma das sequências mais fortes é uma longa cena de sexo demais de dez minutos de Oja com dois jovens dentro de um carro. Isto para além de inúmeras cenas da jovem a passear nua num deserto vermelho...

Será O Outro Lado do Vento uma explosão do desejo de Orson Welles?, pergunta-se no documentário de Neville. Talvez. Será que esse era para ser um filme em permanente construção? Talvez. Será que Welles saberia que parar de filmar seria morrer? Talvez. Tal como Manoel de Oliveira.
The Other Side of The Wind - ***
They’ll Love Me When I’m Dead - ****
Veneza75: Brady Corbert mostra-nos como nascem as estrelas do showbiz dehoje

Era uma das grandes promessas da competição de Veneza75, só que o Vox Lux do muito promissor Brady Corbet acaba por não confirmar a excelente impressão da inteligência das primeiras sequências, que nos fizeram lembrar A Infância de um Líder, e não só por evoluir de 1999 a 2017. Talvez também porque este percurso na origem da fama e como ela se desenvolve nos dias de hoje necessita de baixar a fasquia. Como diz Celeste, “as minhas músicas são piores mas tenho cada vez mais sucesso”.
Um novo A Star is Born? Trilha um pouco esse caminho, embora esta estrela que nasceu a partir de uma tragédia, numa prestação muito conseguida de Raffey Cassidy, acaba cavalgar a onda do pop bimbo,depois do seu manager (Jude Law) a transformar na vedeta que o público deseja, sonha e paga. É nesse processo que estão todas as ideias. Isto porque quando esta estrelinha se assume e Natalie Portman assume o seu papel, é como se o filme desse meia volta. Portman faz o que pode para dar corpo a esta bimba que se deixa devorar pelo culto da celebridade. Terá sido o aconselhamento da artista SIA, com créditos no filme, provavelmente nas longas sequências musicais.
De certa forma temos até alguma ligação com o novo filme do alemão Florian Henckel von Donnersmarck, Never Look Away, também ele a assegurar a realização, argumento e, neste caso,também produção. Talvez porque aqui se segue o percurso da afirmação artística, talvez mais do que a fama, embora não esteja sequer afastada. Se bem que as cicatrizes da Alemanha estejam sempre à vista neste filme que fascina e seduz, mas que nunca abandona um lado demasiado seguro e asseptico. Há uma história de trauma, baseado em eventos reais, que envolve médicos nazis e a mãe de um jovem artista que herdou dela essa verdade de olhar para as coisas.Mas um filme que passa em revista os sinais dos tempos, desde o período nacional socialista, ao socialismo do pós guerra e a euforia da liberdade cristiva. É esse diálogo com a História, esse trauma que se converte em arte que o torna fascinante, mas que acaba até com algum cinismo. Um pouco como dizia El Pepe Mujica, no filme de ontem, que o facto de ter estado provado de liberdade o tornou um homem mais lúcido.
Prestações fantásticas de Tom Schilling, no protagonista, e Paula Beer, na sua companheira, mas sobretudo com Tom Schilling, a encarnar o estilo e os tiques do passado.

Houve ainda uma deceção com Acusada,do argentino Gonzalo Tobal, a ensaiar um filme tribunal pela acusação de um homicídio imputado a Dolores (a estrela argentina Lali Esposito) pela morte de uma amiga na sequência de uma festa. O fascínio mediático de histórias deste tipo foi que seduziu o realizador a fazer este exercício que não colheu o agrado da imprensa.

Por fim, uma nota para mais um filme de Frederik Weiseman, Monrovia Indiana, exibido fora de competição. Isto apenas um ano depois de ter ganho aqui mesmo o prémio da crítica internacional com ExLibris – The New York Public Library. Em mais um documento contemplativo e narrativo, Wiseman observa a comunidade rural de Monrovia, com apenas um milhar de habitantes, e os diversos aspetos do seu dia-a-dia. Fiel ao seu estilo, devolve-nos mais um documento que fixa um pedaço da América no tempo e no espaço.
VoxLux - **
NeverLook Away - ***
Acusada- *
Monrovia,Indiana - ****
Veneza 75: Paul Greengrass atira-nos para o meio do terror de Utoya a 22 de Julho de 2011

Provavelmente,o filme que teria de ser feito – é assim que funciona a lógica do entretenimento. E talvez mesmo o homem indicado para o serviço fosse Paul Greengrass. Sim, o mesmo de Bourne Identity, mas sobretudo o de Sunday Bloody Sunday e do Voo93, sobre o 11 de setembro. De certa forma, com o relato do ataque no dia 22 de julho de 2011, na Noruega, em que morreram 77 pessoas, o cineasta britânico prolonga o seu olhar realista naquilo que é também uma resposta a esse mesmo atentado.
É um olhar de intenção documental com a intenção de percorrer os principais eventos desse dia fatídico. Mas que começa até na véspera, com Breivik a preparar a bomba que haveria de deflagrar diante do edifício governamental. Depois, claro, há a matança no acampamento de verão do partido trabalhista. Body count: 77 pessoas, para além de algumas centenas de feridos, para além dos sobreviventes e o processo do monstro que acaba por sair até humanizado, por muito que não queiramos, e pelo cinismo de teres colhido um advogado trabalhista, portanto o oposto da doutrina de direita radical que pretende defender.
Naturalmente, as opiniões sobre este filme que vem com a chancela da Netflix irão dividir-se (sim, there will be blood!). As opiniões dividem-se logo pela paixão dos eventos, pela opção de um cast norueguês, mas que fala inglês, ou até pela forma como se poderá até questionar a abordagem de Greengrass. Tudo é válido na discussão, se bem que o resultado acabe por ser bastante concreto, pelo menos do ponto de vista puramente informativo.
Mesmo sem ser tão intenso como Voo93, justifica-se o filme que procura a autenticidade e faz-nos mesmo viajar para aquele dia fatídico.