Sobre "Os Idiotas" e o Dogma 95

Autor: Frederico Serpa

Sobre "Os Idiotas" e o Dogma 95

Saturados com a lógica de cinema de estúdio, um grupo de dinamarqueses criou uma placa de mandamentos para uma nova forma de se fazer cinema, estabelecendo um conjunto de regras onde se poderia privilegiar o trabalho de ator e dramaturgia, em vez do demorado atraso inerente a um set up de uma cena com equipas de dezenas de pessoas inscritas dentro duma hierarquia, cada um a puxar para a sua tarefa infinitésima e contribuindo para uma qualquer perfeição cinemática racional, duma razão à qual não quiseram obedecer. 

Seja uma nova vaga de fadiga com a história passada ou simplesmente uma simplificação de um método para apurar aquilo que realmente interessa, o que é fato é que nos exemplos mais mediáticos, como foram "Os Idiotas" de Lars Von Trier e "A Festa" de Thomas Vinterberg, atingiu-se uma qualidade fresca sob uma estética aparentemente rudimentar, provocada por regras como a câmara à mão, a não-utilização de luz artificial ou filtros óticos, e a obrigatoriedade de filmagem no local e som direto (gravação do som durante a rodagem). É fato que ao esquecer estes dogmas do arco da velha se podia ganhar mais tempo para a discussão e a compreensão do que que se estava a fazer. Importa dizer que anos mais tarde tanto Von Trier como Vinterberg, autores do Manifesto que começou o movimento, admitiram que não tinham sido sempre completamente cumpridores das suas regras, e qual é o problema?  

Balizaram uma ideia para propagar outras, tratando temas tão delicados como a repressão de um segredo no seio de uma família durante anos onde o aparecimento da verdade surge numa alta festividade burguesa - onde ninguém quer de facto acreditar no que está a ouvir, acusando o delator de loucura. Não é apropriado arriscar a boa manutenção da festividade ou da satisfação comum em nome de histórias que só possam trazer tensão ou desconforto. Essas sensações não são bem vindas em torno de uma mesa onde a perpetuação de uma ilusão opulenta é muito mais importante que os assuntos internos de um núcleo familiar do pai aniversariante que sendo ele o anfitrião, não pode senão negar, sorrir e erguer uma taça na esperança da resolução. Evitando o spoiler, é resumida esta obra de Vinterberg, “A Festa”, como um olhar aos lugares mais escuros e irreconciliáveis de famílias que guardam segredos trágicos, e do quão insólito é o comportamento de uma classe supostamente "bem educada".

Já em "Os Idiotas”, o tema aproxima-se mais do mau trato que a sociedade tem com a comunidade de deficientes e da vontade de um grupo de amigos de proceder a uma investigação sobre eles mesmos, onde possam aceder a uma outra verdade pessoal através do jogo e imersão noutra versão de si próprios, de idiotas. É a perda da razão quotidiana ou do formato correto de comportamento para o aparecimento de outra coisa, de algo mais autêntico. Tanto num filme como no outro, as barreiras do conforto do espetador são quebradas de uma forma onde já não estamos a ver um filme, mas a participar em algo documental porque os atores são agora pessoas a fazer atos concretos e a descobrirem emoções reais de medo e histeria.

Para concluir, importa dizer que o movimento Dogma 95 foi revolucionário na compreensão duma arte que estava a ficar cada vez mais esterilizada e sintética, na busca de uma perfeição que acaba por ser o seu contrário. 

Publica un comentário

unnamed

Sem comentários