OS MONSTROS, crónica de uma sociedade monstruosa
Provavelmente não há nenhum cinema nacional mais apaixonado por estruturas episódicas que o italiano. Nas décadas de 50 e 60, em particular, os filmes antologia tornaram-se particularmente populares e usualmente consistiam na coleção de curtas assinadas por realizadores de renome em volta de um tema comum. Os Monstros de Dino Risi difere deste modelo no sentido em que tem somente um realizador a orientar todo o projeto, se bem que o tema é comum, neste caso a hipocrisia monstruosa que contamina a sociedade italiana dos anos 60, durante o auge do boom económico dessa nação.
Ao todo, o filme tem 20 episódios que mais justamente se poderiam definir como sketches humorísticos que, seguindo o tema delineado acima, se propõe como um mosaico de crítica social guiada pela mão e pela perspetiva de Dino Risi, um dos grandes moralistas do cinema italiano. Ao olhar para a sua coleção de comédias e o seu papel na edificação e aperfeiçoamento do género conhecido como commedia all’italiana, poderão haver algumas dúvidas em relação a esta caracterização do realizador, mas não se equivoquem – por muito desenvergonhados que os seus filmes, histórias e personagens possam ser, Risi tem sempre em mente um acusador apontar de dedo aos erros da sociedade e suas lacunas morais.
Isso, interessantemente, não invalida que os seus filmes sejam feitos de um modo que tem o sucesso comercial e popular como principal objetivo ou mesmo que, na execução dos seus enredos, Risi mostre quase sempre uma considerável compaixão pelos seus pequenos monstros italianos. Aliás, se há uma linha de pensamento que trespassa quase todos os episódios de Os Monstros é que, na sua hipocrisia e monstruosidade social, as várias personagens do filme não estão somente a infernizar a vida daqueles que os rodeiam mas também a vitimarem-se a si mesmos. Ao mesmo tempo que eles são frutos de uma sociedade venenosa, são eles que a tornam possível e são eles que sofrem os efeitos da sua força destruidora.
Veja-se a calculada escolha dos dois sketches que abrem e fecham o filme, “Educação Sentimental” e a “Nobre Arte”. No primeiro, testemunhamos o estereótipo máximo da masculinidade ideal italiana, bonacheirão, despreocupado, trapaceiro, trocista, arrogante, mulherengo e altivamente mentiroso. Ele é também um pai e educa o seu filho recatado e tímido a reger a sua vida pelos mesmos valores personificados pelo pai. No final, a lição funciona melhor do que se poderia esperar e o inocente e educado rapaz do início do filme torna-se num ladrão que, depois de roubar ao pai, o assassina, uma informação que nos é dada através de um dos mecanismos recorrentes do filme – as manchetes do jornais sensacionalistas.
No segundo exemplo que mencionámos, temos um dos retratos mais empáticos do filme e também um dos seus mais tragicamente patéticos. Aqui, temos um antigo pugilista que é contratado para uma luta que ele deverá perder depois de um round e assim ganhará uma considerável quantia. Inicialmente, o lutador não tem problema em concordar com o esquema mas, durante o primeiro round, os apupos do público põem a sua honra em causa. Não interessa que anteriormente estivesse a concordar com um plano criminoso, o que interessa é que a sua imagem pública é posta em causa, que a sua força e masculinidade sejam troçadas. Numa mostra de virtuosismo formal admirável, a câmara de Risi acompanha os sôfregos esforços do lutador que, recusando-se a desistir, combate até ser dilacerado pelo seu adversário mais jovem e robusto. No final, Risi mostra-nos este homem obcecado com a sua honra, numa cadeira de rodas e problemas cognitivos a grunhir na praia, deliciado com um papagaio de papel.
Tais pontuações trágicas a marcar o fim de histórias jocosas é uma das imagens de marca de Risi assim como dos outros realizadores que gostavam muito de sombrear as suas commedias all’italiana com cinismo cáustico. Efetivamente, essa fórmula de absurdo e humor trocista que termina num horror grotesco manifesta-se em quase todos os episódios cujos últimos segundos são sempre cruéis punchlines ao custo das personagens. Dino Risi pode querer entreter as suas audiências mas nunca se poupa nas críticas, por muito dolorosas ou sérias que elas possam ser. Aliás, no que é talvez o mais inspirado sketch do filme, o cineasta mostra-nos um filme dentro do filme e expõe como a história recente, o horror da 2ª Guerra Mundial, é rapidamente esquecida, relegada a entretenimento de prestígio vácuo que é facilmente ignorado pela burguesia mais preocupada com a sua nova casa de férias.
Com as suas variadas histórias representadas por Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman em modo de humor grotesco e caricato, Dino Risi torna Os Monstros numa obra que é simultaneamente uma comédia populista para a sua época, como se torna num documento sobre essa mesma época. O filme, mais do que muitas outras obras do cinema italiano dessa altura, é um documento histórico que nos ilustra o que uma sociedade via em si mesma, que nos mostra no que uma sociedade conseguia achar humor apesar da sua natureza venenosa e o que uma sociedade entendia como sátira relevante.
De certo modo, podemos dizer que todas as comédias de sucesso ao longo da história do cinema são isso, mas há algo de particularmente arqueológico num visionamento atual de Os Monstros que não se manifesta noutros projetos mais clássicos, intemporais e sofisticados. Por isso, mesmo que uma pessoa tenha pouca paciência ou gosto para a repetição temática dos 20 episódios ou considere o filme cansativo (a duração curta de cada capítulo consegue, geralmente, evitar isto), há algo de precioso em Os Monstros. Este filme, cujo visionamento foi possível graças à festa do Cinema Italiano e à sessão Day&Date da Filmin fez parte de uma retrospetiva sobre o trabalho de Dino Risi que, apesar de pouco celebrado, é um dos grandes nomes dos anos mais áureos do cinema italiano.