«Libertação» – A Itália
“Paisà”/”Libertação” é o segundo filme da trilogia neo-realista de Roberto Rossellini, o mais importante realizador do pós-guerra italiano e um dos que retratou uma Europa devastada pela 2ª Guerra Mundial com um lirismo intocável pela devastidão.
O que vemos em “Roma, Cidade Aberta” (1945) “Paisà/Libertação” (1946) e “Alemanha, Ano Zero” (1948) é, nada mais nada menos, do que a possibilidade do milagre do cinema que, para Rossellini, só podia ser intransponível senão vejamos: em “Paisà” as tropas aliadas ainda estavam a ajudar a reconstruir o país quando Rosselini inicia a segunda aventura de filmar num pós-guerra imediato, num país em ruínas quando, no ano anterior, ainda os efeitos da guerra, da morte e da destruição ainda estavam presentes em todo o lado quando ele faz de Roma uma “cidade aberta”. Segue mais tarde para a Alemanha para acompanhar um renascer das cinzas que dura até hoje. Não era ainda altura do rescaldo, era o início de um impactante período de conivência com o recente passado de um país com e sem culpa de uma destruição massiva.
“Paisà”, co-escrito com Frederico Fellini, relata-nos a par e passo, no início de cada um dos seis episódios, a retirada das tropas nazis e o estado à época face à libertação da Itália. Cada uma destas seis histórias passam-se em diferentes zonas de Itália. Rosselini leva-nos numa viagem devastadora a um ritmo, ora frenético ora amainado, entre Julho de 1943 (primeiro desembarque na Sicília) e inícios de 1945 (o início da libertação). Cada história cumpre um objectivo distinto: na primeira, um grupo de soldados americanos é guiado por Carmela, uma destemida jovem que pouco consegue comunicar com eles mas aceita guia-los entre tiros e bombas; na segunda, a pobreza, a morte, a necessidade de sobrevivência de um grupo de crianças – e de uma em particular – que se vêm obrigadas a roubar para poder comer; na terceira, uma jovem prostituta que se apaixona por um soldado americano mas sem um final feliz; na quarta história vemos mais um romance entre a guerra: uma enfermeira procura o seu grande amor que entretanto se fez líder da resistência italiana que, na altura, estava a ser completamente atacada pelas tropas alemãs; a quinta história dá-nos a conhecer um grupo de padres- soldados americanos cada um com a sua ideologia que se albergam num mosteiro franciscano; na sexta e última história – a que julgamos ser a mais cruel – vemos as piores consequências de uma guerra: a descoberta, por parte das tropas inimigas (alemãs) do esconderijo de um grupo de resistentes e as consequências vividas em seguida – de uma violência e realismo atrozes.
Vemos, neste filme, seis pequenos vislumbres da devastidão que uma guerra comporta e que vorazmente se espalha por todo um território e por um povo que tenta a todo o custo renascer (ou a oportunidade de o vir a fazer).
“Paisà” é, além de tudo isto, o filme que marca profundamente uma certa “viragem” de rumo de Rossellini dentro do seu cinema ou pelo menos atira-o para um rumo devidamente acompanhado. Foi depois de “Paisà” que Ingmar Bergman, emocionada, quis conhecer Rossellini e, mais tarde, se tornou sua companheira na arte e na vida.
Assistimos – em grande tela – ao pós-guerra de Rosselini em Portugal quando, em 1973, veio mostrar-nos “Roma, Cidade Aberta” quase trinta anos depois de o ter realizado. Portugal, que o ano seguinte viveria a sua própria Liberdade, aplaudiu imensamente o filme de tal forma que Rossellini se espantou – talvez tenha passado alguma esperança, talvez tenha dado força ao público, talvez tenha simplesmente o público pensado o que muitos pensam até hoje em dia: há um cinema antes e depois de Rosselini. Ou, tal como defendia André Bazin, um dos inventores do “cinema moderno”.
Para nós nunca, até então, o cinema tinha sido tão humanamente completo, em toda a sua acepção.