Especial Festival de Veneza - Cobertura Festival por Paulo Portugal
The Favourite – Competição
Emma Stone e Rachel Weisz em luta insólita pelo poder no feminino

O trabalho de programação de um festival passa também pela forma como os filmes são apresentados.
No caso de The Favourite, do grego Yorgos Lanthimos, e Roma, do mexicano Alfonso Cuarón, torna-se claro que existiram razões para se verem em conjunto.
Desde logo por serem dois registos fortíssimos que celebram o feminino. Mesmo sem terem de agitar a bandeira do MeToo. Mas também, já agora, por abordarem de uma forma bem diversa a diferença de classes: de um lado, duas mulheres oportunistas (interpretadas por Emma Stone e Rachel Weisz) procuram cair nas boas graças da rainha Anna, a monarca britânica que ocupava o trono naquele início do século XVIII; do outro, a relação particular entre uma mãe mexicana (Marina de Tavira) e a sua empregada Claro (Yalitza Aparicio). Em suma, dois belos filmes a confirmar o alto nível da selecção de filmes em concurso para o Leão de Ouro.
Comecemos por The Favourite, com Lanthimos a prolongar a sua carreira internacional, desta vez com um muito particular filme de época sobre alguns tiques da monarquia britânica e a forma, por vezes tão caricata, como lida com o poder. De resto, fá-lo com a mesma atitude de cinema extremado que nos habituou no passado e, talvez, no seu melhor filme desde Canino. O cineasta grego começa por desvirtuar por completo o estilo do filme de época, pelo uso de uma câmara muito móvel, e pelo uso de lentes que deformam a imagem, num efeito semelhante ao ‘olho de peixe’.
The Favourite é um setting de absolutismo barroco dominado pela rainha e por estas duas mulheres, em que os homens ficam reduzidos a pajens e fidalgotes sem estofo para elas.
O que temos é um verdadeiro power struggle, no feminino, e apenas em pano de fundo uma corte preocupada com uma guerra eterna com os franceses. No entanto, a Anne interessa mais os seus 17 coelhos e o afecto de Lady Sarah (Rachel Weisz) e depois também pela jovem Abigail (Emma Stone) que soube trepar pela escada social.
“It’s fun to be the Queen, sometimes”, dirá Anne (Olivia Colman, que será a Rainha Isabel II na 3.º série The Crown, prevista para 2019, e imediata candidata ao prémio de interpretação feminina).
Poder-se-á talvez dizer que The Favourite tem algo que soa a Peter Greenaway, não só no lado excessivo, mas também pelo requinte cénico e de mise em scène. Dito isto, em nada desmerece o filme, seguramente o favorito de muitos.
Classsificação: ****
Assim Nasce um Estrela - Fora de competição
Bradley Cooper e Lady Gaga dão vida nova a eterno clássico

Sim, nasceu outra estrela. Na verdade, não foi uma mas duas estrelas que surgem neste novo remake de um dos maiores clássicos do cinema americano, várias vezes revisitado, e exibido agora em estreia mundial no 75º Festival de Veneza (fora de competição) com o aplauso da imprensa. Isto de manhã, porque no final da tarde foi a vez dos fãs terem um banho de Lady Gaga ao vivo. Este é seguramente um dos veículos mais importantes da Warner para este final do ano. Depois de Veneza, a equipa de Assim Nasceu Uma Estrela rumou para o festival de Toronto, antes da estreia mundial a 11 de Outubro, também em Portugal.
Não deixa de ser curioso como tanto Bradley e Gaga parecem trocar as suas personas neste filme. Ele, ator consagrado, dá-lhe a oportunidade de brilhar nesta mega-estrela do entertainment, estreando-se como atriz de vincado corte dramático. Ela, por se turno, permite-lhe exceder-se não só como ator, mas também como cineasta. Quem diria, há uns anos atrás, que aquele ator que entrou pela porta da frente com uma grande Ressaca, seria capaz de um trabalho desta magnitude?
A consequência? Bom, muito provavelmente a de ter em suas mãos um filme capaz de atrair múltiplas nomeações aos Óscares, incluindo, naturalmente, a componente interpretativa bem como o trabalho atrás da câmara. Aliás, à semelhança do que sucedeu com as anteriores versões, todas elas brindadas com várias nomeações.
Seja Janet Gaynor e Frederic March, no filme original de William Wellman, em 1937, ou ainda a mais celebrada versão de George Cukor, com Judy Garland e James Mason em 1955 (aquela que o realizador assume como referência principal a este filme), até Barbra Streisand, em 1976, no projeto de Paul Mazurski. Isto apesar de nenhum deles ter levado a cobiçada estatueta.
Foi então com a performance de Lady Gaga na mente e também o trabalho de Cooper na realização e composição que abordámos os dois no encontro com a imprensa após a projeção matinal. Cooper começou por agradecer as nossas palavras, afinal de contas dissera que tinham “nascido duas estrelas”, frisando que “o melhor que podemos fazer em termos de ‘storytelling’ é desafiar-nos ao ponto de aprendermos algo mais.” E que provavelmente “levaria horas a explicar” tudo aquilo que aprendera nesta experiência.
Na mesma nota, Lady Gaga, agora loira platinada de vestido branco, a fazer lembrar Marilyn, fitou-nos no olhar quando disse a tal frase: “eu sempre quis ser atriz!” Percebe-se porque o que vemos no ecrã acaba por caber naquele conceito de química artística. “Eu pude viver o meu sonho. Apenas precisava de alguém que acreditasse em mim. Tive muita sorte que fosse ele. Por isso tenho muita sorte em estar aqui”.
A história segue o fio original, sobre um artista famoso, Jackson Maine (Cooper), no pico da sua fama e dado a excessos, talvez numa maior proximidade com a personagem de Kris Kristofferson, no filme de 1976, ao lado de Barbra Streisand, seguramente uma inevitável comparação com miss Lady; acaba por descobrir por acaso uma cantora (Gaga) num bar trans, mas que trabalhava como servente. Acaba por a promover, superar o seu trauma de ‘patinho feio’ e eventualmente envolver-se com ela. Como reza a história, acabará também por ser superado pelo nascimento desta nova estrela.
Pois é, nada de novo. Só que o poder do entretenimento e até a renovação desta história eterna permite que seja um blockbuster que atravessa mais público do que o costume. Valha-nos isso.
Classificação: ***
ROMA – Competição
Alfonso Cuarón mergulha-nos com uma assombrosa viagem à memória

Em Roma, o mexicano Alfonso Cuarón suspende o seu lado de cinema made in Hollywood (sente-se até uma piscadela de olho a Gravidade, aliás debutado aqui em Veneza), numa viagem ao seu próprio passado, às suas origens de classe média no México. Mas também das relações especiais que a sua mãe teve com uma serviçal e a quem ele dedica ao filme.
De resto, o filme começa com uma imagem belíssima, da água que é lançada sobre um soalho e que acaba por funcionar como um espelho. Interpretamos aqui como a forma como essa empregada limpava a fezes do cão, e reflectia a imagem, talvez a fazer-nos despertar a memória. De resto, é mesmo a memória o motivo mais forte deste filme rodado a preto e branco e com uma fotografia monumental, também do próprio Cuarón, naquele período entre 1970 e 1971.
O próprio cineasta explicou na conferência de imprensa os três vectores donde partiu para a construção deste Roma. Desde logo, a personagem de Cleo, a ferramenta da memória e a fotografia a preto e branco. Esse foi o DNA do seu filme e que trabalhou com longos planos sequência para melhor trabalhar a memória. Algo que o próprio encarou como algo não subjectivo. “A memória pode ser subjectiva, mas as imagens são mais abstractas”, explicou mais, dizendo: “O que quis foi observar esses momentos de forma mais distante em que a câmara não se intrometesse com esses elementos.”
É assim que vamos seguindo o quotidiano desta família de classe média, sem qualquer interferência de sentido. Como se estivéssemos mais perto, testemunhando esse passado, essa memória. Até que a narrativa vai introduzindo elementos que nos vão perturbando de forma gradual, seja com o ambiente opressivo, as manifestações estudantis e até as formas com que Cleo se torna num elo cada vez mais forte naquela família. E quase em cinquenta tons de cinzento.
Resta acrescentar que Roma, no filme esse nome nunca vem à baila (será apenas Amor?), foi um dos filmes ‘quentes’ que chegou a ser considerado para Cannes, mas que acabou por ser afastado devido à controvérsia insanada do festival com os critérios de exibição com a Netflix. Questionado sobre essa opção, Cuarón deixou uma justificação aceitável: que só dessa forma o seu filme poderia ser visto por muita gente, ao contrário do que sucede com tanto cinema independente que acaba por se contentar com escassos dias de exibição em sala e depois desaparece. Por isso mesmo lançou o repto duplo à plateia cinéfila: “quantos de vós viram recentemente filmes do Bresson e do Ozu em sala? E quantos viram em formato digital?”. Uma resposta fácil para quem seguiu (ou segue) em Portugal os ciclos que contemplam diversos trabalhos destes cineastas. Se bem que o outro lado da resposta seja igualmente válido. E pertinente.
Classificação: *****