Entrevista a Göran Lundström, o Famoso Maquilhador FX de Cinema Nomeado ao Óscar de Melhor Caracterização por Border

Autor: João Pinto Fonte: Portal Cinema

Entrevista a Göran Lundström, o Famoso Maquilhador FX de Cinema Nomeado ao Óscar de Melhor Caracterização por Border

O Portal Cinema teve o prazer de entrevistar Göran Lundström, um dos Maquilhadores de Efeitos Especiais para Cinema/Televisão mais famosos do Mundo que, este ano, recebeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Caracterização pelo seu trabalho no filme sueco "Border". É claro que "Border" é apenas o mais recente projeto mediático deste talentoso perito, cujo vasto e ilustre currículo conta também com importantes colaborações em filmes mediáticos como "The Wolfman" ou, recentemente, nas séries "True Detective" e "Genius: Picasso". Falamos com Lundström sobre o seu superlativo processo criativo em "Border", mas também abordamos o seu passado numa tentativa de compreender o que o move e qual o seu processo criativo. O resultado? Uma conversa bastante interessante e elucidativa que nos dá a conhecer um pouco melhor o mundo da Caracterização em Filmes e Séries. Após termos entrevistado o figurinista luso-canadiano Luís Sequeira, que em 2018 recebeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Guarda Roupa, o Portal Cinema volta assim a entrevistar mais um nomeado aos Óscares que é um perito numa importante profissão técnica muitas vezes menosprezada ou ignorada mas que, cada vez mais, assume-se como uma parte fundamental da indústria do entretenimento. 

 

Portal Cinema (PC) – Pode-nos dizer como é que começou nesta indústria altamente competitiva? O que o levou a apaixonar-se pela profissão de Maquilhagem dentro da Indústria Cinematográfica e Televisiva? E quais são as suas grandes inspirações?

Göran Lundström (GL) - Desde criança que sou bastante artístico e sempre quis trabalhar na indústria cinematográfica. No começo da adolescência descobri o que era a Maquilhagem Especial FX e descobri quem era o lendário Rick Baker. Havia algo na criação de grandes criaturas realistas por via de maquilhagens que me deixou fascinado. Os Efeitos Visuais ou outros tipos de Efeitos não me fascinam tanto quanto o processo de criar personagens vivos por via da Caracterização. O trabalho de Rick Baker para "Um Lobisomem Americano em Londres" e no icónico videoclip de Michael Jacksons para o single "Thriller" fizeram-me definitivamente começar a querer aprender mais sobre esta profissão.



PC - Recentemente recebeu uma merecida nomeação para o Óscar de Melhor Caracterização pelo filme sueco “Border”, uma das maiores surpresas de 2018. Pode-nos contar mais sobre o seu processo de trabalho para este filme e o que o inspirou para criar os looks deslumbrantes dos personagens? Quais foram os principais desafios que enfrentou durante o processo? E como foi trabalhar com Pamela Goldammer?

GL - A Pamela e Eu estamos ainda a tentar perceber o porquê de essas maquilhagens terem sido tão bem sucedidas. Posso dizer que foi um trabalho muito curto com muito pouca participação do realizador. Recebi um primeiro telefonema durante as minhas férias em Julho de 2017. Então, aceitando o trabalho, sabia que teria apenas 5 semanas para apresentar o visual dos dois personagens principais e produzir os prostéticos antes de entregar o trabalho a alguém que viria a trabalhar mais perto das filmagens. Isto porque não poderia participar nas mesmas, porque na altura já tinha sido contratado para supervisionar o trabalho de próteses para a série de TV de NatGeos "Genius: Picasso", protagonizado Antonio Banderas, e isso iria sobrepor-se às filmagens de "Border". 

Entrando em qualquer trabalho de caracterização tens sempre que saber de antemão qual é a visão dos realizadores. Seja qual for a sua visão, tens que usá-la como ponto de partida. A partir desse ponto podes tornar essa visão na tua própria visão e, em alguns casos, o trabalho evolui tanto que é muito diferente da visão original, mas depois, nessa fase, já tens o realizador a bordo porque este acompanhou-te durante todo o processo. Eu sabia, lendo o argumento, que queria que eles (os protagonistas) parecessem muito humanos. Não pode haver dúvidas que, quando os vir, eles devem parecer reais. Queria ficar longe do elemento da fantasia e, por isso, não queria transformá-los em criaturas de contos de fadas. Olhei para muitas desfigurações para descobrir até onde queríamos levar o processo criativo. 

O nosso realizador, Ali Abbassi, tinha o Look dos Neandertais como a sua visão original. Mas eu queria ficar bem longe do look Neandertal, uma vez que eles foram uma coisa real e eu queria algo novo. Mas seguindo o conceito do Neandertal, optei por imaginar como é que a Tina ficaria com esse aspeto e, aí sim, optei por torna-la menos feminina.

Encontrei uma boa referência para um rosto interessante para a Tina no ator britânico Eddie Marsan e fizemos um primeiro teste de modelagem de maquilhagem com características semelhantes no rosto da atriz. Deu-lhe um olhar muito estranho, mas realista, já que permitiu adicionar características masculinas a um rosto feminino. Experimentamos diferentes perucas e fizemos algumas próteses provisórias para deixar a boca assimétrica. Mais uma vez, eu não queria que os dentes empurrassem a boca como acontece num Neanderthal. Por isso apenas optei por uma mudança suficiente para distorcer um pouco a sua boca e torná-la menos bonita, sem ser óbvia. Para a maquinagem final fiz algumas alterações com base no que vi no teste. O seu nariz parecia grande demais para o rosto e fazia a caracterização parecer um pouco "masky". Eu fiz um novo nariz mais pequeno e implementei algumas características animalescas, fazendo a ponte do nariz mais larga em cima e dando-lhe protetores auriculares prolongados. Nós tentamos algumas lentes de contacto para tornar as íris maiores como num animal, mas encomendámo-las muito tarde para fazer os ajustes que precisávamos, por isso tivemos que abandonar essa ideia. Fizemos também uma peruca com uma cor opaca e cortámo-la para parecer simples e sem graça. Queríamos transmitir que ela não se sente bonita, então ela não promove qualquer esforço para ficar bonita. 

Trabalhar com a Pamela foi uma delícia. Nós tivemos muita sorte em conseguir tê-la na nossa equipa. Nunca tínhamos trabalhado lado a lado e realmente não nos conhecíamos, apesar de termos participado em alguns projetos em Londres, no entanto, o nosso trabalho nunca coincidiu. Por causa do meu envolvimento em "Genius: Picasso" só poderia trabalhar com a Pamela durante dois dias e, por isso, ela foi atirada para aquele processo de uma forma caótica, mas conseguiu assimilar todas as ideias e finalizou com sucesso o projeto. Só para terem uma ideia, as filmagens começaram apenas dois dias depois de ela ter visto as maquilhagens pela primeira vez! Ela é uma ótima artista e uma ótima colaboradora. Ela tinha visto fotos da minha maquilhagem de teste e conferiu comigo nas primeiras semanas todos os pormenores, já que queria a minha opinião sobre o que estava a fazer. Fui eu que projetei e esculpi a maquilhagem principal e, nesse processo, vi coisas que não ficaram do jeito que eu pretendia, mas com a aplicação fenomenal da Pamela tais falhas foram minoradas e, no final, aquilo que queria melhorar acabou por ser muito reduzido. 

 

PC - O que significou receber uma nomeação aos Óscares, ao lado de Pamela Goldammer, pelo seu trabalho em “Border”? E como reagiu às notícias?

 GL - Conseguir uma nomeação aos Óscares significa, acima de tudo, que fizemos algo bem. Tanto eu como a Pamela sempre nos esforçamos para melhorar o nosso trabalho a cada oportunidade que temos. E receber esta nomeação fez-nos valorizar um pouco mais a nossa intuição sobre o nosso trabalho. Considero que o processo de “receber a notícia” da nomeação é uma viagem. Temos que nos inscrever primeiramente para o trabalho ser considerado e, em seguida, há um processo em que, se fores escolhido, podes mostrar o teu trabalho na Academia em Los Angeles. Nós acompanhamos a Cerimónia do Anúncio de Nomeações ao vivo via streaming e, para ser franco, só queria que aquilo acabasse, independentemente de termos conseguido ou não a nomeação. Não faço este trabalho para obter a afirmação de outras pessoas, por isso não queria que isto tudo se tornasse importante demais. Quando vi o meu nome entre os nomeados fiquei principalmente aliviado por já não sentir ansiedade derivada da expectativa.  E 30 segundos depois de descobrir que estava nomeado, o meu telefone começou a tocar e, do outro lado, estavam os jornalistas que queriam saber como é que me sentia. Pode-se portanto dizer que realmente não tive grande tempo para sentir fosse o que fosse, porque fui logo colocado neste turbilhão de atenção! Mas posso dizer que estou definitivamente agradecido e orgulhoso por ter recebido uma nomeação a um Óscar.

PC - Nos últimos anos trabalhou em alguns blockbusters de Hollywood que foram altamente elogiados pelos seus elementos visuais, incluindo “A Bela e o Monstro”, “Cloud Atlas”, “Fúria de Titãs”, “O Lobisomem” ou “Harry Potter e os Talismas da Morte: Parte 2”. Qual foi seu primeiro contato com Hollywood e como descreve o seu relacionamento com a indústria cinematográfica dos EUA?

GL - O meu primeiro contacto com Hollywood foi quando visitei Los Angeles em 1991. Nessa altura conheci alguns dos meus heróis, como Rick Baker e Steve Johnson. Costumo trabalhar em filmes produzidos em Hollywood que estão sendo feitos fora dos EUA. Em 1993, comecei a trabalhar em filmes de terror de baixo orçamento, produzidos em Hollywood, e realmente gostei da sua abordagem criativa e no seu pensamento de como fazer grandes efeitos. Tudo era executável. E, ao aprender mais sobre este trabalho ao longo dos anos sou obrigado a concordar, tudo é realmente executável, mas tudo depende dos diferentes graus de sucesso é claro. 

No ano passado consegui uma permissão de trabalho nos Estados Unidos para trabalhar presencialmente no set da Temporada 3 de "True Detective". Mas sei que que tal só aconteceu porque fui contratado por alguém que realmente queria ter as minhas habilidades no seu projeto e porque já tinha muitos filmes no meu CV, algo que me permitiu ser aprovado para um visto de trabalho. 

Por norma faço trabalhos fora da minha própria empresa quando preciso de uma pausa. Supervisionar Maquilhagem é um trabalho árduo e, por vezes, preciso de uma pausa para lidar com as preocupações de orçamentos e agendamentos para assim me concentrar mais naquilo que mais importante: a arte. Então trabalhar para outra pessoa torna este foco na arte muito mais fácil.

 

PC - O seu CV mostra trabalhos incríveis nos EUA e na Europa, mas o que difere (caso difira alguma coisa), na sua opinião, a indústria de Cinema e TV em ambos os mercados em relação ao Departamento de Maquiagem?

GL - Gosto de trabalhar em produções de grande orçamento na Europa e nos EUA. Nestes projetos tens realmente a oportunidade de te esforçares e fazeres o melhor trabalho possível. Aqui na Suécia, onde minha empresa está localizada, os orçamentos limitam o que podes fazer e quanto tempo podes gastar com as coisas. Uma diferença notável entre filmes gravados, digamos, no Reino Unido, Alemanha e Escandinávia, e filmes rodados nos EUA ou em outros países com menos restrições, é que as horas de trabalho tendem a ser muito maiores, ou seja, nas produções dos EUA acabamos por dispor muito mais do nosso tempo porque a carga de trabalho costuma ser bem maior e as regras laborais são bem menos apertadas. 

 

PC - Sei que é uma pergunta realmente injusta, mas tem algum projeto favorito que se destaque do resto? Alguma criação que se destaca?

GL - "O Lobisomem" foi um marco porque tive a oportunidade de trabalhar para o meu herói Rick Baker. E o trabalho de maquilhagem acabou mesmo por ser premiado com um Óscar.

 

PC – Também trabalhou em programas de TV, como "True Detective", "Genius" e "Little Britain". O que difere, na sua opinião, o trabalho de um departamento de maquilhagem numa série do mesmo trabalho num filme?

GL - As séries geralmente têm menos tempo de preparação e orçamentos menores. Mas as coisas mudaram na indústria cinematográfica, então este ponto já não é necessariamente uma verdade absoluta nos dias que correm, já que os filmes também têm cada vez menos tempo de preparação. As expectativas sobre o valor da produção para a televisão também aumentaram consideravelmente nos últimos anos, então acho que o público espera uma qualidade semelhante à de um filme.

 

PC – Na sua opinião, como é que vê o futuro do departamento da maquilhagem no Cinema e Televisão? E qual é o melhor conselho que pode dar a quem está a tentar entrar nesta profissão?

GL - Parece que temos mais trabalho hoje do que nunca. Filmes e até mesmo a Televisão exigem hoje em dia tanto trabalho de efeitos que todos os departamentos, incluindo o de maquilhagem, são necessários.  O melhor conselho que posso dar às pessoas que querem trabalhar com isto é serem completamente apaixonados e dedicados ao ofício. Não há fama nesta indústria e qualquer artista neste ramo tem muito pouca apreciação das produções pelo seu trabalho. É um trabalho difícil de aprender, mas é também muito complicado trabalhar nesta área do cinema. Trabalhamos muitas horas, raramente estamos satisfeitos com os resultados que alcançamos (pode ser sempre melhor) e tu não ficas rico por fazer isto. Mas se tu amas verdadeiramente o ofício, isso acaba por não importar. 

Costumo comparar esta profissão com a prática de desportos ou até com a própria música. Tens que ser apaixonado o suficiente para gastar muito do teu tempo livre para ficar melhor e estares mentalmente preparado para não seres pago pelo que fazes. São precisos anos para te tornares realmente bom nesta área. Mas também é um processo muito divertido!  Como qualquer desporto ou profissão musical tens sempre que atingir um certo nível de conhecimento e habilidade antes de poderes estar lado a lado com os melhores. E então, só aí, as tuas habilidades reflectirão em que nível é que jogarás e com quem jogarás. As Escolas só são boas para adquirir conhecimento, mas não recebes nenhuma habilidade de uma escola. Isso requer prática e mais prática.

 

PC - Por último, mas não menos importante, pode-nos dizer o que podemos esperar de si num futuro próximo? Algum novo projeto em andamento?

GL - As coisas têm sido um pouco diferentes desde a minha nomeação ao Óscar. Sinto-me mais inclinado a me concentrar em assumir o trabalho que eu realmente quero fazer e onde minhas capacidades vão fazer a diferença, não assumindo assim qualquer trabalho. Tenho muitos projetos em andamento, mas nada do que posso falar ainda. Mas ambos são projetos domésticos e internacionais.

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