Aurora, um marco injustiçado na história do Novo Cinema Romeno

Autor: Claudio Alves Fonte: Filmin

Aurora, um marco injustiçado na história do Novo Cinema Romeno

A emergência do Novo Cinema Romeno é talvez o mais importante desenvolvimento no panorama cinematográfico europeu do século XXI. Mesmo quando expandimos o nosso olhar para uma escala internacional, somente o renascimento do cinema sul-coreano parece oferecer competição valorativa. No entanto, este movimento caracterizado por obras de extremo naturalismo, com generoso uso de planos sequência, ações prolongadas e impiedosa crítica social, tende a parecer um pouco obsoleto quando consideramos como o seu início coincidiu com os anos de hegemonia do realismo social nos grandes ecrãs europeus.

O que nos anos 90 poderia parecer revolucionário com os primeiros sucessos dos irmãos Dardenne, depressa se tornou num cliché, numa fórmula copiada ad nauseum e, hoje em dia, é difícil não ir a um festival de cinema sem nos depararmos com uma obra filmada do mesmo modo, mas onde tais mecanismos nos parecem escolhas perfuntórias e não o fruto de intencionalidade artística. O slow cinema à moda europeia também foi uma vítima da sua própria popularidade, sujeitando cada nova obra que se pode categorizar com tal expressão, a ser um alvo de acusações de autoparódia e pretensiosismo vácuo.

A conflagração deste pressuposto declínio da opinião crítica relativamente ao slow cinema e ao realismo social europeu com a jovem história do Novo Cinema Romeno, direciona-nos invariavelmente para Aurora. Qual Kurosawa com Rashomon, Cristi Puiu forçou a cinefilia mundial a olhar com atenção para o trabalho dos seus conterrâneos com o seu magistral e sôfrego "A Morte do Sr. Lazarescu", dando início, pelo menos a nível de imprensa crítica, ao reconhecimento do Novo Cinema Romeno. Apesar disso, quando comparado a Cristian Mungiu, Radu Jude, Corneliu Porumboiu ou Radu Muntean, Puiu é um dos cineastas romenos da contemporaneidade dos quais menos se fala. A importância histórica de Lazarescu acabou por ofuscar o restante trabalho do autor.



Este triste fado de Cristi Puiu não foi em nada auxiliado pela receção polarizante que Aurora recebeu quando estreou no Festival de Cannes durante a edição de 2010, cinco anos após "A Morte do Sr. Lazarescu" ter ganho o prémio máximo da secção Un Certain Regard. Ler os textos dos vários críticos que estavam presentes pinta uma imagem de súbita epifania em relação ao estado do cinema europeu, em particular do cinema romeno e sua suposta importância. Parecia que nunca antes tinha passado pela cabeça de muitos desses escritores quão formulaico o cinema celebrado nos festivais pelo seu realismo e vagarosas escolhas rítmicas tinha começado a descambar em desinspirada repetição. Aparentemente, Aurora foi a gota de água que fez transbordar o copo.

Por muito injusta que tal reação nos possa parecer, não deixa de ser compreensível. Aurora é um filme onde a predileção de Puiu por ritmos glaciais e opacidade narrativa atingem níveis de indulgência inéditos na sua carreira. Para dar uma ideia da natureza do filme, note-se que, durante a primeira das suas três horas, o evento mais excitante que o espetador tem oportunidade de apreciar é a ocasião em que o protagonista, ao reparar numa infiltração oriunda do apartamento de cima, depara-se com a vizinha a tentar limpar a casa alagada ao mesmo tempo que grita com o culpado da calamidade, o seu pequeno filho. Esta não é propriamente a matéria prima de grandes e memoráveis dramas humanos.

No entanto, através da sua obsessiva passividade na apresentação do quotidiano de um homem de meia-idade romeno, Puiu fez um estudo de monstruosa violência a florescer no jardim da mais pura banalidade, quase uma desconstrução do ato de matar e sua usual fetichização à mão dos mais variados cineastas. Ver Aurora pela primeira vez é ser embalado pelo tédio intencionalmente orquestrado por um mestre do cinema que, pouco a pouco, nos vai sugerindo algo ameaçador, mas nunca nos explica nada, até que há um choque e a última hora do filme é uma sufocante tortura de crescente tensão e imprevisível desumanidade. Escusado será dizer que, quem não desejar ler spoilers, deverá parar de ler este artigo imediatamente.



De modo resumido, Aurora retrata um ponto de inequívoca viragem no percurso de vida de Viorel, um homem divorciado que é interpretado pelo próprio realizador. Ao longo de um período de tempo relativamente curto, vemo-lo deambular sem aparente rumo por várias paisagens, testemunhamos como arranja uma espingarda com que ensaia um possível suicídio, acabando por levar a cabo múltiplos homicídios. Ele mata o oficial jurídico que representou a ex-mulher no divórcio, uma mulher que, por mero acaso, estava na companhia desse homem, assim como os seus antigos sogros. Por fim, ele entrega-se à polícia e tenta, com vagas palavras que transpiram repugnante misoginia, explicar o que o levou a cometer esses crimes. Para sua consternação, os homens que o ouvem não parecem entender seu comportamento.

Este enredo é esticado pelas já referidas três horas em cenas filmadas com tal distância clínica e economia expositiva que é difícil compreender o que se está a passar na maior parte do filme com exceção do seu verboso final. O efeito é algo muito semelhante ao que Chantal Akerman fez em Jeanne Dielman, sem a acumulação de detalhes neuróticos e caracterizantes dessa obra-prima de 1975. Em Aurora, nunca conseguimos compreender o nosso protagonista e a pouca empatia que Puiu suscita nos corações da audiência é o mero produto da fácil identificação que o espetador pode estabelecer entre a sua vida e a banalidade de tantas das situações protagonizadas por Viorel.



Por isso mesmo, Aurora constitui um desconcertante paradoxo cinemático, retratando uma história de colossal misantropia e maldade ao mesmo tempo que se propõe como uma obra humanista. De um certo ponto de vista, a impenetrabilidade psicológica de Viorel vai lentamente revelando ser uma admissão de derrota face à complexidade assustadora do ser humano capaz de tais atrocidades. Em simultâneo, as desumanas escolhas formais retiram qualquer glamour ao ato violento, tornando-o em algo detentor de um horror que transcende o pânico moral imediatamente suscitado pela violação da santidade da vida humana. Por muito que possa parecer um exercício em insular intelectualidade cinemática, Aurora é, na verdade, uma criação dependente das reações mais viscerais do seu atordoado público.



Este é um filme que facilmente suscita a ambivalência ou o ódio da audiência. Afinal, trata-se de uma obra deliberadamente assente num jogo de aborrecimento, confusão e repugnância que, para quem goste do cinema do realizador, é uma rara anomalia desprovida de qualquer tipo de discernível estruturação dramática. Não obstante esses factos e a clara superioridade de outras obras no cânone de Puiu, Aurora não se trata de nenhuma construção de cinema formulaico e desinspirado. Tanto o modo como o filme se tornou num bote expiatório para a crítica internacional justificadamente cansada do slow cinema e do realismo social, como a sua posição negligenciada na história do Novo Cinema Romeno são grandes injustiças. Poucos são os filmes que tão bem empregam estes usuais mecanismos do cinema europeu ao mesmo tempo que são amplamente revisitáveis. Cada vez que se vê Aurora, novas dinâmicas emergem por entre a sua indefinição narrativa e abjeta recusa em disponibilizar qualquer tipo de âncora expositiva para o espetador perdido.

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