A ULTRAPASSAGEM, uma comédia de movimento e ritmo

Autor: Cláudio Alves

A ULTRAPASSAGEM, uma comédia de movimento e ritmo

A ULTRAPASSAGEM, uma comédia de movimento e ritmo

O cenário da abertura de A Ultrapassagem de Dino Risi é Roma, mas há nas suas imagens pouco da sedutora beleza dos filmes de Fellini ou do romantismo e peso histórico que tanto atraem turistas. Na verdade, esta paisagem romana é um pesadelo de monotonia cinzenta e estéril, com rios de alcatrão a traçarem ruas por entre blocos de cimento desprovidos de vida, tanto que um dos protagonistas, ao ver a capital italiana desertificada, a compara a um cemitério. Mas Risi, como o próprio diálogo do filme sublinha num cómico piscar de olho à audiência, não é Antonioni, e o seu interesse não é alienar a sua audiência. Assim, esta mortiça visão romana é um necessário agente de contraste que nos permite apreciar os verdadeiros focos desta sequência e, na verdade, de todo o filme: movimento e ritmo.

Pelas estradas vazias desta Roma abandonada passa um carro em frenético movimento. A sua energia parece quase propulsionar a câmara a persegui-lo, sedenta por vitalidade que dissipe a esterilidade do ambiente urbano. O mesmo acontece com Roberto (Jean-Louis Trintignant), um jovem estudante recatado e ansioso, que é levado por Bruno (Vittorio Gassman), o condutor da abertura, numa aventura inesperada pela autoestrada italiana. Eles conhecem-se quando, após parar para descansar, o obstinado dono do automóvel vê um vulto que recua de uma janela aberta num dos muitos edifícios anónimos da paisagem. A necessidade de fazer um telefonema leva ao contacto dos dois homens e Roberto deixa que Bruno entre no seu severo apartamento, acabando por ser arrastado com ele numa imprevisível viagem que depressa abandona Roma. Intuitivamente, a audiência sabe que o rastilho da história do filme foi aceso e agora não há nada a fazer senão observar o vibrante caminho até à explosão final.

Se, como estabelecemos anteriormente, movimento e ritmo são a pedra basilar de A Ultrapassagem, Roberto e Bruno são as personificações máximas dessa dinâmica central. Enquanto um deles é caracterizado pela inação, por um movimento vagaroso que normalmente resulta num reticente recuar, o outro é uma força de constante e bombástico movimento caótico, uma força bruta que colide com a imobilidade do outro homem e o propulsiona, tal como anteriormente propulsionou a câmara. Poderíamos explorar muita da psicologia subjacente a tais caracterizações (Risi, afinal, estudou psiquiatria antes de se tornar num cineasta), mas é a sua expressão puramente cinemática e narrativa que confere a este filme a sua característica energia.

Especialmente na primeira metade do filme, Risi coloca o espetador numa posição de proximidade com a perspetiva de Roberto. Um dos mecanismos que possibilita isso é o uso de um monólogo interior expresso em voz-off, mas é também a sua posição estrutural no esquema do filme que completa esse processo de identificação. Tal como nós, a personagem é um observador passivo a ser levado numa viagem por uma força maior, uma força espetacular que é vista tanto com prazer como medo. Mesmo quando Bruno se desdobra em momentos de ignóbil arrogância, rudeza machista ou mesmo desprezível homofobia, é difícil não encontrar na sua estratosférica confiança algo de sedutor. Mesmo quando sentimos repulsa pela sua atitude, há um magnetismo que nos leva a não o rejeitar, a seguir o seu caminho e a ver nele algo que, hipoteticamente, gostaríamos de ser.

Dino Risi pode não ser um dos mais descarados moralistas do cinema italiano, mas essa característica está presente no seu trabalho e A Ultrapassagem não é exceção. É importante ter tal noção em conta pois, apesar do seu jogo de sedução platónica homossocial, há uma altura em que o realizador deixa de idealizar Bruno e passa a dissecá-lo de um modo inescapável. Este não é mais um desses filmes cheios de lugares comuns em que uma pessoa recatada é ensinada a viver por alguém mais aberto e libertino. Ou, pelo menos, não é somente isso.

É aqui que temos de voltar à abertura do filme, ao seu tom fatalista e à sua expressão de movimento e ritmo. Em termos esquemáticos, A Ultrapassagem é facilmente divido em três atos que representam a dinâmica de movimento da sua história e personagens. Primeiro, temos a velocidade de Bruno a arrastar Roberto e a forçar um novo ritmo à sua existência. Quando chega a noite, Risi começa a alterar notoriamente esta dinâmica, separando momentaneamente os protagonistas, dando a Roberto os seus primeiros instantes de controlo sobre a sua própria história. Ao mesmo tempo, a noite traz a destruição da imagem idealizada de Bruno enquanto objeto de admiração, mostrando-nos as consequências que a sua atitude teve não só na sua vida como na dos outros que o rodeiam. Finalmente, um novo dia oferece uma dinâmica nova, com Bruno a adiar o seu regresso estrada, e Roberto a tornar-se não só um protagonista ativo, mas também o novo propulsionador do movimento do filme.

Quem já viu o filme, bem saberá que esta nova dinâmica tem resultados bem negativos, resultando num final chocantemente trágico para o que, até aí, tinha sido uma ligeira comédia italiana (talvez o píncaro do movimento da commedia all’italiana). Se bem que, recordando o início, a sugestão de morte está sempre presente, assim como uma melancolia que permeia mesmo os momentos mais exuberantes e dá à sinfonia do filme uma melodia paralela que antecipa a tragédia. Um interlúdio na casa dos tios de Roberto sublinha essa contracorrente de seriedade no meio da comédia, trazendo consigo a lembrança de um passado perdido, a arquitetura deteriorada de uma nação que morreu para dar à luz uma nova Itália do boom económico, e a contemplação de vidas embalsamadas no seu próprio vazio. Risi não era Antonioni, mas isso não quer dizer que o seu cinema intencionalmente populista fosse desprovido de nuance ou variações tonais. Aliás, como é a efemeridade da vida que dá prazer ao viver, também é a ameaça da morte que dá potência à comédia.

Mesmo assim, será raro encontrar alguém que tenha Dino Risi em comparável consideração a Antonioni. Infelizmente para o realizador de A Ultrapassagem, assim como muitos dos seus colegas que se dedicaram à comédia, a leveza aparente das suas narrativas e a popularidade comercial do seu produto são injustamente tidos como uma marca de inferioridade artística. Poucos são aqueles que, por exemplo, reconhecem o virtuosismo formal em comédias como esta, onde a montagem, os movimentos de câmara, ora trémulas perseguições automobilísticas ora serenos travellings horizontais, e a banda-sonora pontuada por jazz pintam uma soberba modulação rítmica. Por isso, há que se celebrar iniciativas como a homenagem que a Festa do Cinema Italiano está presentemente a fazer a Risi, assim como a disponibilização do filme em Filmin através do visionamento Day&Date. Afinal, mesmo que A Ultrapassagem possa não ganhar o amor de todos, certamente merece alguma admiração cinéfila.

Cláudio Alves

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