"A história de um homem sem futuro que encontra na caridade de um dono de restaurantes e na bela mulher deste um pouso não é nova. Aliás, é esse o ponto de partida da novela (que ficou famosa) de James M. Cain, The Postman Always Rings Twice de 1934. Ficou famosa tanto ou mais porque causa das várias adaptações ao cinema que veio tendo ao longo dos anos. A primeira das quais foi pela mão de Luchino Visconti que, por não ter os direitos da obra, chamou ao seu filme simplesmente Ossessione, mas logo depois Hollywood (já com os direitos) fez The Postman Always Rings Twice (O Destino Bate à Porta, 1946) com Lana Turner e John Garfield. Anos depois fez-se um remake caliente com Jack Nicholson e Jessica Lange, The Postman Always Rings Twice (O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, 1981) e recentemente o realizador alemão Christian Petzold regressou ao mesmo tema, com Jerichow (2008). Talvez a melhor adaptação seja mesmo a primeira, já que Visconti ao realizar um belíssimo filme, inaugurou também o neo-realismo.
Para Visconti, o que interessa, mais que a dita obsessão sexual, é a culpa e a forma como um mendigo errante lida com o ficar preso a uma mulher e a um lugar. Por oposição aos americanos, que se interessavam pela paixão mestiça de ódio e morte (de dependência e engano) no caso do original e no remake era o desejo sexual (a luxúria) que liderava as contas (e para o alemão o que mais interessava era como podia sobreviver a amizade sob o jugo das dívidas. Como diz o colega João Araújo, “Ossessione parece dá conta da complexidade das relações humanas, da recusa em aceitar uma visão simples das possibilidades da vida, e de como as imagens podem ser importantes para dar espaço a sentimentos subterrâneos e a tumultos interiores, iluminando essas diferentes possibilidades.”"
—
Ricardo Vieira Lisboa
de
À Pala de Walsh