Pequena tragicomédia, no registo sottovoce típico do realizador, que denuncia as contradições de uma Europa que aspira à solidariedade, mas que não consegue calar a sua pulsão racista e xenófoba.
21 Janeiro 2019
Versão original com legendas
2017
26-10-2017
Duas histórias que se cruzam. Khaled é um refugiado sírio que perdeu quase toda a família. Chega a Helsínquia e procura asilo sem grande esperança no seu futuro. Wikström é um caixeiro-viajante nos seus cinquenta anos que decide deixar a mulher e o trabalho. Muda de vida e compra um pequeno restaurante. Quando as autoridades decidem extraditar Khaled, como muitos outros, ele decide ficar ilegalmente em Helsínquia e desaparecer nas ruas da cidade, onde é vítima de vários actos de racismo, mas onde também encontra bondade pura. Wikström descobre-o e decide contratá-lo. A vida parece sorrir por um momento, mas o destino depressa intervém, podendo tanto conduzir a uma vida respeitável como ao cemitério.
Pequena tragicomédia, no registo sottovoce típico do realizador, que denuncia as contradições de uma Europa que aspira à solidariedade, mas que não consegue calar a sua pulsão racista e xenófoba.
21 Janeiro 2019"Extraordinário o regresso do finlandês Aki Kaurismäki à sua Trilogia Portuária (que iniciou em 2011 com Le Havre) neste novo The Other Side of Hope, filme que aborda a integração dos refugiados sírios nesta Europa ainda atormentada pelo racismo. A intriga fala-nos de dois indivíduos (um refugiado e um vendedor ambulante de camisas) que juntos abrem um restaurante em Helsínquia, ao mesmo tempo que o primeiro tenta reencontrar a irmã desaparecida. E fá-lo de uma maneira tragicómica, com aquele humor irónico que lhe fica tão bem, expondo cada cena em planos médios num ambiente de cores vivas, como que saídas de um cinema vivamente clássico. Porque ver um filme de Kaurismäki é isto, viajar a um cinema de outro tempo, onde predomina o realismo portador de uma certa magia, com a capacidade de fazer crer num mundo altruísta, solidário e de genuíno humanismo, mesmo quando tudo não poderia ser mais caótico. É tudo de um classicismo tão saudoso (afinal, estamos a falar do único filme que foi exibido em 35 mm da secção competitiva) e, no entanto, tão fresco e com o doce sabor de uma imperdível novidade. Encontramo-nos com o cineasta e os seus dois protagonistas na melhor das conferências de imprensa que assistimos na Berlinale e que transcrevemos aqui apenas parte. Entram no auditório, com o realizador a fazer vénias gozonas à imprensa que lhe aplaude unanimemente. Com o seu tom cínico e a fumar um cigarro eletrónico, faz da conferência um espetáculo de comédia e, simultaneamente, uma manobra ativista. Confrontam-lhe com as palavras que disse sobre pretender tocar a audiência com o filme. Este replica, num tom deliciosamente sardónico e pouco egocêntrico "
— Duarte Mata de C7nema
"O desencanto com os “tempos modernos”: o retronos filmes de Kaurismaki não é uma questão de decoração mas antes a expressão de uma “filosofia”."