"Mas como dizia, a puissance da palavra é uma presença singular no último capítulo por se sentir que já todas as costuras que antes haviam cerzido os eventos que ocorreram em Portugal no intervalo de 2013-2014, de forma mais ou menos dissimulada, se mostram orgulhosamente na sua manipulação, mais que isso, parecem ser as palavras que conduzem os homens da Musgueira, antecipando cada uma das suas acções, “as personagens de Nouvelle Vague são espectros vampirizados pelas palavras” e os passarinheiros e os seus tentilhões também o parecem ser – está por fazer o paralelo evidente entre a obra de Gomes e a de Godard; mas não é da mesma natureza a energia destrutiva, paródica e escabrosa que enche o episódio d’”Os Homens de Pau-feito” ou o d’”As Lágrimas da Juíza” e Vladimir et Rosa (1971)? “Não esconder a estrutura e atirá-la à cara do espectador” disse Miguel Gomes e de facto tudo em As Mil e uma Noites é estrutura, cada história tem histórias dentro de si, Xerezade vai contando, mas quem a faz contar é Gomes à beira da morte e quem o põe nessa situação é o Gomes realizador, e dentro de cada história que Xerezade conta há quem conte outras histórias e tudo se organiza, como o descreveu o João Lameira, qual boneca russa onde se pretende “enfiar as bonecas maiores dentro das mais pequenas e em acrescentar outras que não encaixam em lugar algum“. Esta figura cubista de formas estranhas que enverga com orgulho as suas deformidades é aquilo que faz de As Mil e uma Noites um exemplo da extraordinária ousadia do seu realizador que parece ter poucas barreiras entre a ideia e a sua execução (o que para muitos pode passar por auto-indulgência), quero posso e faço – e o que nos aparece é um objecto livre e surpreendente, mais ainda neste último volume que começa nem mais nem menos com um interlúdio musical de meia hora que é o elogio das formas puras [não será por acaso que dentro da obra de Gomes o filme que mais pontos partilha com esta trindade seja Cântico das Criaturas (2006) mais não fosse pelo recorrente lado franciscano, mas porque igualmente começa com um realizador à deriva, passa apara um momento de teatro puro – o galo, a juíza – e termina numa musical apropriação de imagens documentais construída exclusivamente pela montagem]."