Review: Bang Gang – Uma História de Amor Moderna

Autor: Miguel Arsénio

Review: Bang Gang – Uma História de Amor Moderna

A nudez e um pouco de escândalo raramente conseguem salvar um filme que não disponha de muito mais soluções. Podem as duas eventualmente vender bilhetes, provocar excitação ou assegurar os prazeres de um bom exploitation (porque também os há em abundância), mas muitas vezes ver corpos nus em situações titilantes resume-se a isso mesmo. A França, país orgulhosamente liberal e com uma fortíssima tradição de ficção erótica, há muito que nos habituou a filmes de escasso pudor e protagonistas pouquíssimo agasalhados. Alguns desses são trabalhos triunfantes, enquanto outros ficam sempre aquém de convencer independentemente da qualidade de pele impingida. Focando-nos apenas e por agora na anterior década, encontramos em “Os Sonhadores” (longa de 2003 realizada por Bernardo Bertolucci) um exemplo evidente de nudez bem empregue no desenho de uma peculiar fantasia a três. Recuando três anos até ao muito mais perturbante e bem diferente “Baise-Moi”, deparamo-nos com uma produção francesa que insiste em exibir corpos de modo explícito sem grande fundamento além de chocar o seu público.

Onde se insere neste quadro “Bang Gang”, o principal instigador deste texto? Fica certamente muito mais perto da elegância idílica d’“Os Sonhadores” do que da banalidade do dispensável “Baise-Moi”.“Bang Bang” invoca a nudez em quantidades generosas, é certo, mas atribui-lhes uma função pertinente na mensagem que Eva Husson tenta passar nesta sua primeira longa: num tempo em que tudo se sabe através das redes sociais e “leaks” virais, nada é tão estrondosamente escandaloso ao ponto de fazer parar as engrenagens. O mundo aqui perspectivado por Eva Husson não perde muito tempo a pensar sobre determinado acontecimento, porque há sempre um próximo que surge horas depois e fará esquecer o anterior. Abre-se uma ferida antes que a outra sare. Sucedem-se em catadupa episódios de ciúme, traição, sexo perfeitamente casual, conflito familiar e consumo de drogas, no interior de um grupo de jovens, mas nada faz abrandar (provavelmente só acelera) este micro-universo dominado pela internet.   

Em “Bang Gang – Uma História de Amor Moderna”, estes jovens de um qualquer subúrbio francês aborrecem-se, comem-se entre si de modo aleatório (conforme ditar a garrafa que gira no chão de festas caseiras), sofrem algumas consequências, mas tudo isso não é assim tão estranho enquanto parte de um processo de crescimento vivido a cada vez mais megas por segundo. Eva Husson retrata esta “juventude vertiginosa” comparando a sua volatilidade à das condições atmosféricas (numa analogia que se aceita, vá lá) e desenvolvendo uns poucos personagens suficientemente credíveis (trata-se afinal de uma história baseada num caso verídico). A realizadora estreante consegue, além disso, alcançar uma sensação de intimidade que lembra não só o parente próximo “Kids” (de Larry Clark, que tem novidade disponível na Filmin), como também o arrebatador drama de “olhos nos olhos” que é “Morrer em Las Vegas”, do arrojado Mike Figgis. Por todos os motivos, “Bang Gang” facilmente pode ser encarado como um “Kids” do seu tempo, que aproveita muito bem o que possa ter aprendido com o ritmo contagioso e descontrolado d’“A Rede Social” (2010), o implacável e soberbo filme de David Fincher. Posto isto, não nos admirávamos se partissem daqui nomes que haverão de nos surpreender mais vezes no futuro (recomendo particular atenção à belíssima Marilyn Lima). Outras dúvidas ficam por tirar no catálogo da Filmin, onde “Bang Gang – Uma História de Amor Moderna” se encontra já disponível. 

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