O Parque de Diversões da Vida
A adolescência é como uma montanha por escalar que pode repentinamente tornar-se íngreme. A prova disso é David, cuja passagem à idade adulta é acelerada pela agonia do avô no hospital e por um primeiro amor que transtorna os seus dias.
A primeira longa-metragem de João Salaviza passa-se nos primeiros dias de verão numa Lisboa periférica e não turística. Um debute esperado de um realizador filho d’arte, com uma mãe produtora e um pai (José Edgar Feldman) montador e realizador – o qual colaborou também na montagem de “Montanha”. Um realizador que já se tinha destacado com as suas curtas-metragens vencedoras de prémios internacionais: a Palma de Ouro em Cannes em 2009 com “Arena” e o Urso de Ouro na Berlinale em 2012 com “Rafa”, além de muitos outros reconhecimentos internacionais. Nos primeiros trabalhos (mencionamos também “Cerro Negro” de 2011) Salaviza desenvolveu um estilo reconhecível, com um imaginário bem definido e coerente e colabora estreita e profundamente com o premiado diretor de fotografia Vasco Viana, desde os tempos da escola. Os temas abordados são os da adolescência, da relação entre mães e filhos, com as instituições (a escola, a prisão, a polícia), temas que voltam na longa-metragem. “Montanha” tem uma derivação direta e especial com “Rafa”: a personagem do amigo de David tem o mesmo nome, e o mesmo intérprete, Rodrigo Perdigão, assim como o mesmo estatuto social do protagonista da curta.
O filme é um coming-of-age vindo da melhor tradição do cinema português, com todos os momentos-chave, a partir da ambiência de verão, com o parque de diversões, as corridas de acelera e a discoteca, utilizados sempre de um modo preciso e eficaz.
No primeiro plano de abertura do filme, o rapaz está deitado na cama, é de manhã cedo, e um ventilador aceso debruça-se sobre ele. O calor é quase palpável e sente-se uma tensão entre algo para afastar e outra para prolongar. Para prolongar, além do repouso, seria esta idade de despreocupação. Para afastar, as angústias, mas também as vacilações e as inseguranças, para poder enfrentar melhor as dinâmicas do mundo dos adultos.
Este momento é perturbado pela entrada da mãe, Mónica (Maria João Pinho). Ambos se vão encontrar em papéis invertidos no fim do filme, quando muitas coisas vão mudar.

David é um rapaz que vive com o avô, e se vê forçado a ser mais velho do que a sua idade. A mãe acabou de voltar de Londres, onde vive com a irmã Ema, por causa do internamento imprevisto do pai. Seguem-se dias de espera, durante os quais o adolescente tenta dar continuidade a uma deambulação ociosa na companhia de Rafa. Roubam uma acelera, correm pelas ruas, arrependem-se, discutem sobre quem fica com as chaves, ficam indecisos se a devolvem ou não, e depois pegam-lhe fogo. Ou então, conversam simplesmente durante longas horas olhando para a cidade, e vão a festas. Impressionados pelos suicídios e pela quantidade de pessoas que acabaram assim com a vida, lançando-se para o vazio. Um dos temas preferidos dos rapazes é a bela Paulinha, que mora no mesmo prédio de David, mas que não se mostra muito e tem uma grande capacidade de desaparecer. Vai ser ela a suscitar ciúme entre os dois amigos.
David é um rapaz terno e raivoso, determinado e esquivo, frágil e duro, orgulhoso e pronto para mostrar o seu valor. É capaz de uma declaração de amor devastadora “só te tenho a ti na vida”, repete, em frente à janela, com os olhos que olham para Paulinha sem temor. Uma cena de tirar o fôlego.
Se a interpretação de David Mourato é intensa e envolvente, é a realização madura e autoral de Salaviza que dá ânimo à personagem, a assinalar o tempo e quase a fixá-lo nestes dias longos que vêem a personagem enfrentar etapas cardinais do seu crescimento. O realizador consegue agarrar a energia pronta a explodir, canalizando-a em planos estreitos ou fixos, como se confirma na cena da pista de dança, no parque de diversões, ou na conversa na escola, que são as cenas mais bem conseguidas e convincentes. Um debute preciso e participativo que usa as panorâmicas para descobrir, mas também para retirar como na discoteca, ou ainda esconder pudicamente, como na cena do primeiro beijo.