Nyo Vweta Nafta (2017) de Ico Costa

Autor: Carlota Gonçalves Fonte: À Pala de Walsh

Nyo Vweta Nafta (2017) de Ico Costa

Nyo Vweta Nafta (2017), filme do português Ico Costa que venceu o prémio principal de curta metragem no Cinéma du Réel, Festival International de Films Documentaires, leva-nos para Moçambique, a Inhambane e Maputo, por uma África pensadora e faladora, através de um périplo temporal expressivamente concentrado. O filme abre-se assim num percurso mais ou menos errante por uma África bela de morrer, de cores intensas e saturadas, paisagem que parece caber na perfeição no suporte película 16mm. Se no início do filme, e também no início da vontade do realizador para o realizar, a procura de uma pessoa perdida, a Nafta, marca narrativamente a entrada num mundo, e numa paisagem, capaz de prender logo, e engolir qualquer um pela sua força telúrica, a ideia vai alargar-se para outra procura. Esta busca tem outros moldes e deixa-se ir numa balada de pessoas que também se procuram e se projectam, em troca permanentemente marcada pela palavra solta que vai preenchendo o espaço.

Um certo princípio de ficção, que prende inicialmente, com a tal procura da personagem num mercado cheio de vida, fica retido algures e o espectador deixa-se ir para outros lugares, num tom que esbarra o documental (sem querer fechar o género em nenhum género), evocação de um cinema “a provocar” a verdade, uma verdade que se vai extraindo das coisas pequenas, quotidianas, tão simples e autênticas. É fácil lembrar Jean Rouch, o etnólogo cineasta e pensar no filme, Moi, un Noir (Eu um negro, 1958), no brilho dos gestos e dos diálogos em situação, e colocá-lo perto de um semelhante fulgor que emerge tão bem em Nyo Vweta Nafta. A ver logo, no início, o casal que passeia na motoreta agarradinhos, e a sua conversa à Nouvelle Vague – pequena aproximação de estilo, Godard admirava muito Rouch, e o grupo dos Cahiers du cinéma admitiam-no como precursor do movimento – a criar laços com uma liberdade e frescura tão presentes.

– Vou construir-te um prédio.

– Eu não quero um prédio.

– Preferes uma casa de caniço?

– Sim, prefiro.

– Uma casa de caniço não dura.

– Uma casa de caniço apodrece rapidamente.

– Uma casa de caniço é um transtorno, mas… Eu quero comprar-te um carro.

Reconhece-se em Nyo Vweta Nafta a alegria do povo moçambicano, uma certa candura, a leveza de uma juventude que vive, e entre a alegria e o desalento criam-se imagens fortes pela disponibilidade incrível de um olhar.

Permeável e generoso, leve e bonito, levemente intenso, o filme possui exactamente a força que corre, “naturalmente” por ele dentro, pelas veias de um país que pergunta, que luta, que cresce. Nyo Vweta Nafta parece captar com desarmante à vontade a força das pessoas, as dúvidas, os sonhos, numa franca abertura que corre pelos espaços, pelos corpos jovens, e claro pelas palavras – um filme que fala muito e tem uma construção sonora igualmente importante.Ico Costa filma o presente de uma geração jovem no Moçambique de agora, com pessoas que vivem e sonham, neste momento, vidas normais que verbalizam coisas das mais diversas naturezas: desfile de marcas de roupa, de ténis, de telemóveis, tecnologia, dinheiro, e mais os desejos, as perspectivas de uma vida melhor, as esperanças deitadas cá para fora. O realizador não prende nunca o discurso, não o reduz à trivialidade enunciada, compõe momentos vivos, muito próximos das pessoas, com muitos planos abertos a permitir serem ocupados, movimentados no seu interior, onde a mise en scène se compõe cúmplice entre forma e conteúdo. O quotidiano segue sem alvoroço a par da importância de todas as coisas.

Enquadrados junto a uma janela (mais outro quadro, dentro do quadro), os jovens falam, estratégias de engate, vontade de sair, ter mais dinheiro: “Eu quero ficar rico, mas ainda não fui a África de Sul./ Quanto mais rico for o país menos probabilidade de haver palitos. Na Noruega não há palitos” – está-se a falar de palitos dos dentes. A graça intromete-se com este género de reflexões que parecem sair de um manual de sabedoria popular. Planos abertos deixam que um grupo de rapazes avance por um caminho de terra e o tema do quotidiano volta, a lista das tarefas domésticas, o assunto das “miúdas”… Tudo isto ressoa, amplifica-se em notas que falam do passado colonialista, há um texto lido sobre um rol de condições para permitir a entrada na comunidade Lusíada, enquanto vemos um rapaz no cimo de um coqueiro – apesar de tudo, do lastro da memória, a vida no presente está mais viva do que nunca.

O crescimento da capital entra na discussão: “Em Maputo só tás fixe se fores rico, mas rico mesmo!”. O que decidir entre beber café no Hotel Cardoso “à patrão”, ou uma cerveja numa barraca, mostra o espírito, o pensamento a soltar-se, a consciência livre – aí está o segredo. O passado é por vezes invocado: “O preto estragou tudo. Viste Maputo como era dantes? Era terra de brancos. – Os meus avós tinham trabalho. – Os teus avós eram explorados”. Não é preciso muito para sintetizar o passado com um remate sábio – e o travellling continua à volta da árvore por entre os galhos ao crepúsculo.

As situações encontram-se, ligam-se os fragmentos, há sempre mais um pormenor que se releva: um galo branco invendável que tem a alma do patrão, os rapazes que voltam à conversa das raparigas, as “pitas” falam da “guita”, mais a música e o amor que se perdoa, a dança, a noite, o poder vitamínico dos frutos, os rapazes em cima das árvores, o ciclo do quotidiano a repetir-se… e mais detalhes tão singulares que se vão vendo e ouvindo com um largo sorriso. Reconhece-se em Nyo Vweta Nafta a alegria do povo moçambicano, uma certa candura, a leveza de uma juventude que vive, e entre a alegria e o desalento criam-se imagens fortes pela disponibilidade incrível de um olhar. Ico Costa devolve-nos em pleno a atmosfera física e afectiva de um país em movimento. No final, é no topo de uma árvore que estão os nossos heróis, e é o embondeiro que vai tomar o centro da imagem contra um belo céu azul.

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