Maio de 68: Uma Antologia Cinematográfica

Autor: Inês Oliveira Fonte: Cinema 7ª Arte

Maio de 68: Uma Antologia Cinematográfica

ESTE MÊS CARREGA O PESO DE UMA DATA CUJA REVOLUÇÃO GEROU FUROR: O MAIO DE 1968.

Há exatamente 50 anos saiu das universidades para as ruas a inquietação de uma juventude, que entre greves e barricadas causou uma das revoluções mais marcantes da Europa. Num período em que a França se mostrava um país cristalizado, estagnado no tempo e no espaço, os jovens, força de mudança, agitaram a pátria espoletando uma onda de reivindicações e ideologias. Seguindo pensamentos de intelectuais como Herbert Marcuse ou Guy Debord, os intervenientes conseguiram viver o sonho, criando um inferno para todos os que tentavam combater a sua causa.

As manifestações feitas na época atingiram proporções tão grandes que, nesse ano, o Festival de Cannes parou. Pela primeira, e até à data única, vez na história o festival de cinema mais importante da Europa não decorreu. Acredita-se que a conspiração começou a 13 de Maio, quando Godard, Truffaut e Lelouch chegaram à 21ª edição do festival com o intuito de trazer para Cannes os ventos da revolta vindos da capital. Mas a história não ficou por aqui, mais tarde, dia 15 de Maio, Roman Polanski, Louis Malle e a atriz Monica Vitti, parte do júri dessa edição do evento, revelaram que haviam aderido ao protesto e, para terminar, Alain Resnais, Milos Forman e Carlos Saura, cujo trabalho disputava nesse ano a Palma de Ouro, retiraram-se da competição, assumindo a boicotagem.

O foco em Cannes tem que ver com o papel crucial que a 7ª arte teve na agitação que foi o Maio de 68, devido aos ideais revolucionários da causa coincidirem com o pensamento de muitos cineastas da Nouvelle Vague, como Jacques Rivette, Truffaut, Claude Chabrol, Eric Rohmer e o já mencionado Godard. Com o foco neste movimento artístico e uma juventude revoltada a lutar pela transgressão moral e estética, o Palácio dos Festivais foi tomado nos dias do festival para dar lugar a mais um espaço de discussão política. Com os jovens do lado do cinema, o cinema abraçou também, continuamente, a revolução.

Ao celebrar-se este ano o quinquagésimo aniversário deste importante marco histórico, resolveu-se homenageá-lo com uma antologia de obras do cinema:

O Maoista (La chinoise, 1967), Jean-Luc Godard
O Maoista (La chinoise, 1967), Jean-Luc Godard

Em 1967, Godard conseguir retratar nesta obra aquilo que viria a ser o espirito da juventude sentido no Maio de 68 e por isso “La chinoise” é considerado um dos filmes mais emblemáticos do cineasta. Servindo, hoje em dia como retrato de uma época, na altura o filme foi tido como um “panfleto” dos ideias políticos da juventude revoltada: propaganda. Maoísmo, anarquismo, marxismo, situacionismo, terrorismo, cinefilismo…. tudo coexiste no universo que o cineasta retrata no interior do apartamento que Veronique (Anne Wiazemsky), Guillaume (Jean-Pierre Léaud, “alter ego” de Truffaut) o ator, Henri (Michel Semeniako) o economista, Kirilov (Lex De Bruijn) o pintor, e Yvonne (Juliet Berto) a prostituta, partilham e no qual conspiram e discutem as idéias revolucionárias de Mao-Tsé-Tung. Assim, através dos ensinamentos de Mao e da Revolução Cultural que este havia trazido, este grupo de estudantes luta para encontrar a sua posição no mundo e é através desta luta que Godard procura pôr em causa a ação, os vícios e os diálogos dos “aprendizes de esquerda”. Godard não poupa os seus personagens e há, claramente, um propósito em condenar a pressa e a fragilidade com que as opiniões destes se preparam para uma guerra política controversa.

Os Dias de Maio, 1978, William Klein
Os Dias de Maio, 1978, William Klein

Os Dias de Maio, 1978, William Klein

Em 1978, através de um documentário apaixonante, torna-se evidente a força da filmagem direta do Quartier Latin em Paris, a pedido dos estudantes da Sorbonne assim como toda a carga crítica que o file carrega.

O filme é uma tentativa de dar palavra à população, trabalhadores, donas de casa, estudantes, ativistas, intelectuais, pessoas que raramente tinham contato umas com as outras… As discussões e ideias destes intervenientes invadiram toda a cidade, os rumores, os sonhos, as intrigas, as revoltas e as crises colmatam num conjunto de deixas delirantes e acima de tudo captadas no momento. É retratada a contestação à autoridade, os sentimentos dos grevistas, o dia-a-dia nas assembleias, as barricadas, os confrontos, as discussões políticas, as manifestações, as ilusões, e a esperança… De câmara na mão, Klein produziu uma crónica preciosa, perturbadora e fiel aos acontecimentos da grande revolução vivida em França naqueles tempos. Para quem ambiciona compreender e sentir o que se passou efetivamente nas ruas de Paris, esta é uma obra indispensável e inesquecível.

Os Sonhadores (The dreamers, 2003) Bernardo Bertolucci
Os Sonhadores (The dreamers, 2003) Bernardo Bertolucci

Começando em Fevereiro de 68, o filme evoca os primeiros pensamentos revolucionários geradores das manifestações do Maio desse mesmo ano. Celebrando o que foi ser um jovem idealista naqueles tempos, o filme recria muito aproximadamente a atmosfera da época.

Este não quer de todo ser um filme político, não quer também, de nenhuma forma, relatar os eventos de Maio de 1968, se assim fosse ter-se-ia feito um documentário… O filme quer somente passar para o ecrã, simbolicamente, o inconformismo daquela época, a luta e a revolução, a parelha ideal entre sonho e política.

“The dreamers” conta a história de três jovens: Matthew (Michael Pitt), Isabelle (Eva Green), Theo (Louis Garrel). Todo o enredo gira à volta destes personagens, dos seus sonhos, da política, do cinema, do sexo. A história começa por ser narrada por Matthew mas rapidamente passa a ser contada pelos três, aquando das evocações visuais que remetem para uma vontade constante de vida e de mudança. O amor daqueles jovens é o que de mais forte passa para o observador, fazendo com que o amor pelo cinema gere mais amor pelo cinema e que o sonho individual gere o sonho coletivo.

Os Amantes Regulares (Les amants réguliers, 2005) Philippe Garrel
Os Amantes Regulares (Les amants réguliers, 2005) Philippe Garrel

Esta obra retrata a época conturbada que foi o Maio de 68, com as revoltas liberais e estudantis em França através das memórias do cineasta Philippe Garrel. Sendo uma obra nitidamente autobiográfica, Louis Garrel é, como não poderia deixar de ser, quem desempenha o papel que teria sido o do seu pai e é neste exercício estético de lembrança da Nouvelle Vague que nasce uma obra de tal forma próxima do espectador, que o faz sentir como parte integrante do enredo.

Mostra-se uma juventude decadente e inovadora. Mostra-se a geração que renovou a ideia de liberalismo. Mostra-se a juventude que vivendo em sonhos e devaneios se cansou de ver uma vida vazia e uma França estagnada.

O filme mostra o momento após a falhada revolução estudantil de 68, no qual um grupo de jovens se muda para uma casa herdada por um dos intervenientes. Ao partilhar uma vida, evidenciam-se questões como a paixão pelas artes, o consumo de drogas exaustivo, o sexo ocasional… é dentro deste ambiente sonhador que François (Louis Garrel), poeta de 20 anos, e Lilie (Clothide Hesme),  jovem escultora, vivem o seu romance. A forma como cada um deles vê o romance é distinta e contraditória e a inércia boémia acaba por substituir o falso idealismo do casal, espoletando uma onda de desequilíbrios mentais e emocionais que colmatam terminando com o sonho.


Entre o humor e a utopia, há 50 anos fazia-se a revolução...(Re)vive Maio de 68 e outros sonhos desiludidos em FILMIN.

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