“La danse”: o espírito da colmeia

Autor: Luís Mendonça Fonte: À Pala de Walsh

“La danse”: o espírito da colmeia

Ver este filme de Wiseman – aliás, ver (quase) todos os filmes de Wiseman – lembra-me sempre a forma como o documentarismo tradicional está dominado pela lógica do making of – ou será antes o contrário? Qualquer actividade que seja retratada, política, artística, social…, é ilustrada pelos pensamentos e impressões do momento de quem a pratica. Ou melhor, por norma, os documentários da televisão, e aqueles que sendo de cinema não merecem a grandeza do grande ecrã, enchem de ruído verborreico inútil as suas imagens, onde, também por sistema, os close-ups dos rostos muito subjectivamente se impõem à totalidade, aberta e plural, do plano geral.

Várias vezes, somos bombardeados por isto: documentários centrados no dispositivo, na palavra, no protagonista (e numa narrativa formatada dentro do modelo dos três actos à guisa de Hollywood), relegando para segundo ou terceiro plano a actividade que o motivou. Veja-se como na maior parte dos making ofs há mais cabeças falantes a regurgitar os elogios da praxe ao realizador e à equipa do que imagens do trabalho da rodagem. “Ele é uma pessoa especial; trabalhar com ele é uma honra; não hesitei em aceitar o seu desafio; são todos fantásticos”, frases feitas tão recorrentes como são em futebolês as tiradas “o futebol é assim mesmo; há-que levantar a cabeça e trabalhar para o próximo jogo; não há favoritos para o próximo jogo”. Imaginamos que nas mãos da pessoa errada La danse (A Dança – Le Ballet de l’Opéra de Paris, 2009) seria ou saberia a isso mesmo: um making of sobre uns quantos espectáculos organizados pela companhia de bailado da Opéra de Paris.

Mas, felizmente, Wiseman estava no lugar certo à hora certa para, pura e simplesmente, desaparecer no ar com a sua câmara; tornar-se invisível até às paredes de cada divisão (mesmo as subterrâneas) da Opéra, que se revela, como muito expressivamente diz Luís Miguel Oliveira na sua excelente crítica publicada no jornal Público, uma colmeia de actividade efervescente. Os processos de aprendizagem são postos a nu, levando a que o espectador sinta na pele as exigências físicas e mentais a que são submetidos e se submetem os bailarinos – bem a propósito num filme sobre raparigas e rapazes que treinam, diariamente, para serem “monges e boxeurs” ao mesmo tempo. A segunda parte desta dança acontecerá em Crazy Horse (2011), versão mais kinky de La danse na obra recente de Frederick Wiseman, por trocar o décor da Ópera pelo cabaret mais popular da cidade de Paris, o Crazy Horse. E se é crazy o espectáculo, é extremamente sério e rigoroso o backstage – mais até que na Ópera? O “efeito colmeia”, esse, também se mantém intacto, porquanto, já o sabemos, o método em Wiseman é uma forma de ascese.

Recuando no tempo, apetece dizer que Wiseman torna La danse numa espécie de “High School 3”, já que estamos, de novo, numa “instituição” escolar, mas, desta feita, virada para uma expressão artística específica; logo, um processo cativante – em cativeiro… – com todas as qualidades microcósmicas do típico habitat wisemaniano. Se antes tínhamos as reuniões com os professores de liceu e as aulas propriamente ditas, agora invadimos sorrateiramente o espaço de cada um dos funcionários da Opéra, desde o porteiro até à directora artística, passando natural e principalmente pelos corpos, o docente e o discente.

Fundamentalmente, o filme é sobre aquilo que separa e une docentes e alunos, isto é, sobre o ensino, não da mente mas do corpo. E o ensino é, nesta “dança”, uma passagem de testemunho de ex-bailarinos consagrados para bailarinos que o irão ser. O que importa manter, perante as pressões financeiras “exógenas”, transcolmeia, transparis, transfrança, transatlânticas…, é a qualidade do produto: se as bailarinas são as abelhas, o mel é o movimento que preenche os nossos sonhos e que nos faz ir à carteira. Tudo é ascese? E economia, tudo é economia em Wiseman.

Publica un comentário

Sem avaliações