Jia - O ritmo da vida

Autor: Eddie Bertozzi Fonte: Catálogo da Semana Internacional da Crítica de Veneza

Jia - O ritmo da vida

O ritmo da vida.

家 jia: Este é o caractere chinês para “família”. Graficamente é composto por dois elementos: a parte de cima representa um teto, a de baixo é a estilização de um porco. Um porco debaixo de um teto – o porco como animal de tradicional simplicidade, e o teto como símbolo de proteção. Juntos transmitem uma sensação calorosa, a da intimidade de um corpo pulsante aninhado num universo peculiar.

Jia, o impressionante debute de Liu Shumin, debruça-se sobre estas questões e guia-nos delicadamente sob o teto de uma família chinesa, fazendo-nos sentir a sua respiração, às vezes ligeira, outras mais pesada, dando ritmo às suas vidas tanto nos momentos importantes como nos mais insignificantes.

Jia estende-se numa impressionante duração de 280 minutos. A duração pode ser intimidante ao princípio, mas consegue imediatamente dissipar qualquer perplexidade. De facto, desde a primeira cena ficamos completamente conquistados por este épico familiar, tão simples como fascinante, que nos envolve no seu tenro e respeitoso percurso. Esta apaixonante crónica de detalhes de vida – sorrisos, dores, afeições – é revelada ao passo de dois septuagenários que viajam pela nova China, numa missão que é ao mesmo tempo pequena e titânica: visitar os filhos adultos, falar com eles, apoiá-los.

Não é uma coincidência que Jia pareça dialogar com o lendário filme Viagem a Tóquio (Ozu Yasujiro, 1953). No filme de Ozu, encontramos o mesmo tópico: pais velhos numa viagem em visita aos filhos que vivem longe – uma maneira de cuidar dos filhos adultos que estão demasiado ocupados para ir visitar os pais. No contexto chinês, isto corresponde à subversão do conceito de xiao: a devoção filial, uma das virtudes fundamentais do Confucionismo. E como no filme de Ozu, encontramos uma participação compreensiva nos ritmos e gestos do dia a dia, conectados numa história simples mas universal. É esta atenção aos rituais do quotidiano – detalhes materiais e emocionais – e o seu deferimento pelo tempo que cria este laço entre a história narrada e as dinâmicas das personagens.

Entramos suavemente no coração desta família: observamos a velha mulher a preparar refeições, ouvimos as confissões, as memórias e os problemas. Liu Shumin consegue envolver-nos graças a um estilo rigoroso mas nunca incompreensível, onde a câmara privilegia ângulos e perspectivas sempre intencionais. Como se andasse em bicos de pés, o espectador é posicionado como se estivesse atrás de uma porta entreaberta que dá para a sala, ou a uma certa distância, entre as árvores de um parque. Esta escolha estilística nunca cai no voyeurismo nem oferece um ponto de vista externo ou objetivo. Corresponde antes a uma respeitosa observação participativa, com o espectador que observa a família desde uma curta distância para assim poder, pouco a pouco, entrar e fazer emocionalmente parte da família.

O realizador não está interessado numa exploração puramente documentarista do meio social (mesmo que este acabe por emergir claramente), nem em experimentações estéticas. Através de uma narrativa ficcionalizada com tons autobiográficos, Liu Shumin prefere centrar-se num princípio específico, fundamental na cultura clássica chinesa, que ao mesmo tempo precisa de reinterpretação na cultura contemporânea: xing, a natureza humana.

Num sentido mais lato, Jia demonstra uma certa coerência com a recente tradição do cinema de autor chinês, atento a testemunhar o dia a dia do seu país. Mesmo emprestando algumas motivações e características deste movimento,  o filme de Liu Shumin consegue oferecer um resíduo estilístico e temático que o transforma num produto original, uma obra que não se compromete com esquemas pré-concebidos, e que, por causa disto, consegue surpreender e convencer. Estamos certamente no terreno do chamado cinema independente, e isto é claro tanto pela estrutura produtiva do filme assim como por algumas escolhas estilísticas. Como por exemplo, a utilização exclusiva de atores não profissionais – um traço particularmente interessante que consegue alcançar níveis impressionantes de naturalidade na atuação dos atores.

Se no novo milénio o digital se transformou no meio preferido dos autores de cinema independente (e não só) chinês, então Shumin empreende uma escolha de contracorrente ao filmar em 35mm, concedendo um crescente valor monumental à simplicidade dos eventos contados: a materialidade do celulóide contra a volatilidade da imagem digital.

No fim do filme (que termina com uma notável escolha de realização), o espectador não quer deixar a família. Mas onde uma família termina, outra começa, e este pequeno círculo de histórias, afetos, problemas, alegrias e dramas são infinitamente repetidos no ciclo da vida e do cinema. Neste contínuo fluxo de transformação e descoberta, Jia apresenta um autor corajoso que não só não tem medo de se expor com uma narrativa de duração excepcional, como a sente estritamente necessária. Um realizador que já na sua primeira obra é capaz de nos propor uma joia cinematográfica perfeitamente confeccionada. 




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