Especial Rossellini - A Trilogia da Guerra por Cinema 7ª Arte

Autor: Tiago Resende Fonte: Cinema 7ª Arte

Especial Rossellini - A Trilogia da Guerra por Cinema 7ª Arte

Por ocasião da Retrospectiva Roberto Rossellini, por parte da Filmin, que disponibilizou no seu catálogo dez obras do mestre do Neo-Realismo Italiano, o Cinema 7ª Arte dedica-lhe um especial, em particular à Trilogia da Guerra.

O cineasta italiano foi o fundador do neo-realismo, com “Roma, Cidade Aberta”, e um precursor do cinema moderno, com “Viagem a Itália”. Em 1942, com “Obsessão”, o jovem aristocrata Luchino Visconti terá dado os primeiros passos para o estilo neo-realista (o novo realismo), mas foi Rossellini que desencadeou a corrente neo-realista, a última grande revolução do cinema mundial.

Roberto Rossellini, nascido numa família burguesa de Roma, realizou três trípticos, quase de forma seguida. Começou por realizar algumas curtas-metragens nos anos 1930 e a sua primeira longa-metragem, “La Nave Bianca” (1941), dá inicio à trilogia Fascista, que completa-se com “Un pilota ritorna” (1942) e “Uomo dalla Croce” (1943). O primeiro filme trata da Marinha, o segundo a Aviação e o terceiro o exército italiano. As três produções de propaganda de guerra foram feitas com a ajuda do regime fascista de Mussolini.

Com o fim da 2ª Guerra Mundial segui-se o segundo tríptico, o seu trabalho mais humano e sincero, a trilogia da Guerra, a das cidades em ruínas (Roma, Itália de norte a sul e Berlim), composto respectivamente por “Roma, Cidade Aberta” (1945), “Libertação – Paisá” (1946) e “Alemanha, Ano Zero” (1948). São três estudos sobre a Europa pós-guerra, sobre os que morreram e se sacrificaram (o sacrifício é o mote que une os três filmes), em prol de um mundo novo, de um mundo melhor. O cineasta mostrou a cidade de Roma durante os últimos dias de ocupação dos nazis, tendo sido declarada “cidade aberta”. Os seus heróis são um padre (católicos), um membro da Resistência (comunista) e uma viuva que tem um filho e espera outro dentro de si (as mulheres, o povo). São estes os heróis, que resistem às atrocidades dos nazis e fascistas. Em “Libertação”, dividido em seis episódios, é percorrida a Itália de norte a sul. A última parte do tríptico, “Alemanha, Ano Zero”, mostra uma Berlim dizimada e arruinada, que em tempos já foi bela e poderosa, e que agora terá que se reconstruir do zero, como sugere o título do filme. O cinema teve que começar do zero e reinventar-se. A corrida para a morte de Pina (Anna Magnani), que gritava pelo seu namorado Francesco, em “Roma, Cidade Aberta”; um soldado negro americano segue um rapaz até sua ‘casa’, à procura da sua bota, e lhe pergunta onde estão os seus pais, pelo que o rapaz lhe responde ‘não percebo…mãe e pai estão mortos’, em “Libertação”; e o suicídio desesperado de Edmund de um prédio de Berlim em ruínas em “Alemanha, Ano Zero” são imagens humanas e reais que os filmes de Rossellini imortalizou.

O Medo (1954), Roberto Rossellini

Depois da Trilogia neo-realista seguiu-se a trilogia de Ingrid (três filmes em que realizador trabalhou com a atriz Ingrid Bergman) “Stromboli” (1950), “Europa ’51” (1952) e “Viagem a Itália” (1954). Depois de Itália Rossellini fez uma viagem à Índia, com “Índia, Terra Mãe” (1959).

“A realidade está aí, para quê manipulá-la”, afirmava o cineasta. O neo-realismo apareceu como uma resposta ao estilo clássico das super-produções italianas, geridas por Mussolini, para ir ao encontro com a realidade. “A intenção era contrapor um cinema sério, política e esteticamente responsável, ao cinema de mero divertimento e evasão”. Para André Bazin havia a necessidade de representar o real. O teórico e crítico via o cinema como um meio para captar a realidade sem intervenção nenhuma, ou seja, havia uma estética documental com recurso à luz natural e câmara à mão, ao uso de planos mais longos e com a mínima montagem possível, por exemplo. A improvisação é uma característica comum nestes filmes, com atores e não-atores (pessoas reais que vivem nos locais da rodagem do filme).

Citando o próprio Rossellini: “Crê-se demasiadas vezes que o neo-realismo consiste em fazer desempenhar o papel de um desempregado por um desempregado. Pode escolher-se qualquer pessoa na rua. Eu prefiro os atores não profissionais porque eles chegam sem ideias preconcebidas. (…) Quando se encontra diante da câmara, ele fica completamente perdido e vai tentar ‘representar’; é aquilo que é preciso evitar a todo o custo. Esse homem faz gestos, sempre os mesmos; (…) O meu trabalho é o de o restituir à sua verdadeira natureza, de o reconstruir, de o fazer reaprender os seus gestos habituais.”. Era portanto um cinema humanista. Dizia também que, “o que era neo-realista nos filmes dele não era o tema mas a mise en scène, isto é, a realização.”. O cineasta contava as histórias como até então ninguém tinha contado. Foi um novo inicio para a sétima arte. O neo-realismo italiano acabou evidentemente por influenciar o Cinema Novo francês, português e brasileiro.

Truffaut disse sobre Rossellini o seguinte: “Rossellini tinha começado por filmar uma aldeia, depois tinha passado para uma cidade, depois para um país, depois para uma ilha, depois para um continente e, por fim, para o planeta inteiro e para o universo das ideias, com ‘Sócrates, O Messias…’”. Ou seja, “Roma Cidade Aberta” refere-se a uma cidade, “Libertação” refere-se à Itália inteira, “Alemanha, Ano Zero” refere-se ao grande país derrotado e destruído, “Stromboli” refere-se à ilha, “Europa 51” refere-se ao continente Europeu materialmente reconstruído mas não moralmente. Rossellini filmou a vida.

O neo-realismo italiano foi um cinema humanista retratado em filmes como “Sciusci” (1946); “Ladrões de Bicicletas” (1948); “Milagre em Milão” (1951) e “Umberto D” (1953) de Vittorio De Sica; “A Terra Treme” (1948) e “Rocco e Seus Irmãos” (1960) de Luchino Visconti; “A Estrada” (1954) de Federico Fellini; “Mamma Roma”(1962) de Pier Paolo Pasolini. Foi sobretudo uma resposta a um momento terrível da história da Itália.

“Um filme é sempre um esboço. Trata-se de se fazer o esboço mais vivo possível”. O estilo rosselliniano assemelha-se a um rascunho incompleto, assim como este artigo dedicado ao italiano, é apenas um esboço da sua obra. Seguem-se os textos sobre a Trilogia da Guerra: “Roma, Cidade Aberta – A Cidade” por Cláudio Azevedo, “Libertação – A Itália” por Regina Machado e “Alemanha, Ano Zero – O país derrotado e destruído” por Filipa Saraiva. A ilustração é da autoria de Helena Morais Soares.

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