DOUBLE BILL FILMIN #1

Autor: Tiago Resende Fonte: Cinema 7ª Arte

DOUBLE BILL FILMIN #1

Double Bill Filmin é uma rubrica quinzenal inspirada no fenómeno da indústria cinematográfica em que as salas de cinema exibiam dois filmes pelo preço de um. Double Bill dá a conhecer dois filmes a ver na plataforma de streaming Filmin. Dois Filmes, uma Filmin.


O primeiro episódio do Double Bill Filmin é dedicado ao cineasta italiano Ettore Scola, conhecido sobretudo por “Feios, Porcos e Maus” (1976), filme que o permitiu receber o prémio de Melhor Realização na competição do Festival de Cannes. As minhas duas primeiras sugestões para o fim de semana são “Um Dia Inesquecível” (1977) e “O Baile” (1983).

Um Dia Inesquecível (1977)

Nesta obra juntam-se Ettore Scola, Sophia Loren e Marcello Mastroianni num dos filmes mais íntimos do cinema italiano. Ambientado num bloco de apartamentos num bairro de Roma, no dia 6 de maio de 1938, dia em que Mussolini e Hitler se encontram pela primeira vez, todo o filme acompanha esse dia através de Antonietta (uma mulher doméstica que aguarda o regresso do marido, um fascista fanático) e do seu vizinho Gabriele (um locutor de rádio que foi despedido por ser homossexual e antifascista).

Os dois cruzam-se naquele dia “inesquecível”, primeiro para todos os que foram acenar a Hitler nas ruas de Roma, mas, para Antonietta e Gabriele, sobretudo, foi um dia que os marcou para sempre ao encontrarem um no outro algo que os tornava completos. Para ela foi a descoberta do amor, pois mesmo sabendo que Gabriele era homossexual, foi com ele que sentiu pela primeira vez esse sentimento, e foi com ele que começou a refletir sobre o regime fascista que tanto admirava. E para ele foi um abrigo, uma enorme alegria em poder confiar e ser quem verdadeiramente é. Encontrou nela segurança por o ter aceitado pela sua diferente orientação sexual. O sentimento de amor surge e envolvem-se sexualmente. “Não significa que não consiga fazer amor com uma mulher. Foi bonito, mas não muda nada.”

Numa época de tanto ódio pelo outro, de superioridade, de preconceito e medo pela diferença, há dois seres humanos que vivem verdadeiramente um dia inesquecível, que lhes muda a vida, que lhes permite viver uma intimidade que lhes era proibida. Este é um filme que retrata os reprimidos da sociedade daquela época, as mulheres vítimas de uma sociedade machista e opressora, e os homossexuais, vítimas, no fundo, do mesmo. Um belíssimo filme com os imponentes Mastroianni e Loren, com uma realização sublime e segura de Scola.

O Baile (1983)

Há uma semelhança entre “O Baile” e “Um Dia Inesquecível”: ambos são filmados num único espaço, num único cenário. Se no filme anterior, a ação decorria entre um bloco de apartamentos e entre os dois apartamentos dos protagonistas, em “O Baile”, a ação acontece toda num salão de baile francês, fundado nos anos 1920, que sobrevive até aos anos 80, a era das discotecas. Há uma câmara que dança ao ritmo dos tempos, que acompanha a moda, os costumes da sociedade, os estilos musicais e os principais acontecimentos históricos.

Neste filme, que é um musical, mas também um drama e uma comédia, há uma liberdade narrativa que permite o realizador saltar de personagem em personagem sem diálogos. Os gestos e as expressões são universais, o que por sua vez tornam este filme muito comunicativo para com qualquer espectador. 

“O Baile” é a prova de que o cinema pode dizer tanto sem uma única palavra. Através de sons e de música, é possível retratar cinco décadas da nossa história (dos tempos da resistência aos alemães durante a Segunda Guerra Mundial ao Maio de 68), retratar várias classes sociais, os amores e desamores, a juventude e a velhice. E tudo isto apenas com pessoas a dançar num salão.

Ettore Scola consegue de forma criativa transpor parte da história do século XX da França para um único cenário, que é o reflexo do tempo. O salão é a principal personagem deste filme, pois ele é o motivo de união de todas as personagens, é o que lhes proporciona as mais variadas experiências, e é um personagem que se vai adaptando ao longo dos tempos. E é um espaço que chega a todo o tipo de pessoas, independentemente do seu estatuto social, da sua raça, da sua profissão ou do seu passado. Todos passam por lá. Descobertas, dúvidas, medos, invasões, guerras, vitórias, paixões e alegrias. A vida está cheia destes momentos. “O Baile” é cinema no seu estado mais puro.

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