Crónica Cannes 2017: "A Ciambra", gypsy kings
Jonas Carpignano dá continuidade ao seu vibrante e multipremiado "Mediterrânea". Se este filme se tornou na sensação da Semana da Crítica há dois anos atrás (onde o realizador ganhou o Prémio Discovery) tudo aponta que nesta 70ª edição o mesmo se repetirá com "A Ciambra" na Quinzena de Realizadores.
Sobre?
Pio, é um jovem cigano de 14 anos que quer crescer depressa. Tal como o seu irmão Cosimo, Pio bebe, fuma e aprende a roubar para sobreviver nas ruas. Depois de o seu irmão mais velho ser preso, Pio toma o seu lugar para sustentar e defender a família. Um papel de grande relevo que será confrontado com uma decisão impossível.
Quem dirige?
Jonás Carpignano passou a sua infância entre Roma e Nova Iorque, e depois de se formar mudou-se para Itália para continuar a sua carreira. O seu trabalho tem sido apresentado em grandes festivais, entre os quais Cannes, Veneza e Sundance. Baseada em obras como "Bestas do Sul Selvagem", a sua primeira longa metragem é “Mediterrânea” filme de ampla projeção internacional que o fez ganhar o Gotham de Melhor Novo Realizador e o Discovery Award da Semana da Crítica do 68º Festival de Cannes. Vale a pena dizer que "A Ciambra", o seu segundo filme, nasce de uma curta de sucesso com título homónimo premiada em festivais como SXSW. Importa também dizer também que Martin Scorsese apadrinhou este filme com a Produção Executiva e que a montagem é da autoria de Affonso Gonçalves, cujo currículo conta com "Carol", "Paterson", "Só os Amantes Sobrevivem" e "Bestas do Sul Selvagem".
Quem entra?
Em "A Ciambra" encontramos as mesmas personagens que em “Meditarrânea” embora, neste caso, os papéis estejam invertidos. O africano Koudous Seihon passa a ser secundário e o protagonismo passa para Pio. Depois de nos brindar com uma atuação memorável como ator secundário em “Mediterrânea”, é este jovem ator quem carrega todo o filme e o mais notável de tudo é que o faz com uma poderosa presença e carisma.
O que é?
Um spin off de "Mediterrânea" que nos leva diretamente a “Mange tes morts e “I Ricordi del Fiume”.
O que nos traz?
Primeiro e, antes de mais, este filme é a consolidação definitiva de Jonás Carpignano como cineasta emergente e autor de primeira categoria. Depois do seu segundo e aclamado filme, a perigosa travessia dos seus amigos do Burkina Faso até Itália e a sua luta diária em encontrar lugar numa Europa que não recebe imigrantes de braços abertos, o realizador de origem italiana formado nos Estados Unidos decidiu desta vez ficar em Calabria (mais concretamente no bairro de Gioia Tauro) para nos narrar a história de outra comunidade marginal, a dos ciganos romenos, através dos olhos de Pío, um menino de 14 anos cuja memorável participação como ator secundário em "Mediterrânea" o levou ao lugar de protagonista de "A Ciambra". Um coming of age de nuances neorrealistas que, tal como o seu antecessor, se apresenta como uma mistura entre documentário e ficção com um poder formal esmagador. Uma obra imponente e de grande impacto que mergulha nos rituais, tradições e formas de vida de um microcosmos condenado à delinquência para ter a sua manutenção e sobrevivência, e que acima de tudo sublinha o peso da tradição familiar e incide sobre a relação submissa que este clã cigano tem com a máfia calabresa (ndraghetta). Esta condição leva o jovem protagonista a enfrentar um desolador conflito de valores que desemboca numa obra avassaladora e inspiradora a todos os níveis.
