120 BPM (BEATS PER MINUTE): UM FILME PODE TER MAIS QUE UMA VIDA
DEPOIS DE UMA PASSAGEM DISCRETA PELOS CINEMAS PORTUGUESAS, O FILME QUE ARRECADOU O GRAND PRIX EM CANNES SOBREVIVE NO FILMIN.
É senso comum falar-se da morte do cinema ou de como a cultura de “sala” pode prejudicar a evolução da indústria privilegiando uma espécie de fast-food cinematográfico à là carte nos serviços de streaming ou, até, nas plataformas piratas. E se por um lado essa tendência se pode confirmar, em alguns casos e contextos específicos só o contrário se pode afirmar.
Basta pensar no exemplo nacional e na fraca rede de distribuição de cinema — sobretudo mais alternativo — fora dos centros urbanos como Lisboa e Porto. A oferta é residual, as escolhas habitualmente dúbias e a internet apresenta-se como a única alternativa. Ou na quantidade de filmes com menor projecção mediática que passam discreta e rapidamente pelas salas do nosso país. A verdade é que num país com tão poucas estruturas que sustentem essa tal “indústria”, os serviços de streaming dão uma nova vida aos filmes.

120 BPM (Beats Per Minute) é um desses exemplos de passagens discretas pelas salas portuguesas e que tem agora no Filmin uma hipótese de remanescer. Das salas para o site foi um instante, sem chegar a perder o factor novidade e é por isso que merece este destaque. Apesar de não ter sido muito comentado ou divulgado no nosso país, o último trabalho de Robin Campillo (Les Revenants, Eastern Boys) foi uma das surpresas memoráveis do último festival de Cannes, onde arrecadou o Grand Prix e rasgados elogios do icónico realizador e membro do júri de Cannes, Pedro Almódovar.
Com uma história que funde a realidade e a ficção de um modo difícil de distinguir, pode-se dizer que 120 BPM (Beats Per Minute) é um filme na atitude e um documentário na narrativa. A película conta a história da ACT UP, uma associação contra a SIDA em acções constantes no tempo de François Miterrand, no início da década de 90.
O filme acompanha a revolta de Nathan e dos seus colegas da ACT UP Paris ao longo de uma série de acções de protesto, perante a inoperância e o desinteresse do governo de Miterrand na contenção do vírus da SIDA. É com esse contexto de fundo e a partir dessa base quase histórica, que 120 BPM (Beats Per Minute) se eleva, transformando-se numa película emocionante e dramática.

É histórico, didáctico, interventivo mas sobretudo profundamente humano, o resultado do trabalho de Robin Campillo ele próprio também ex-militante da ACT UP. 120 BPM (Beats Per Minute)é um filme que permite um olhar único sobre a cultura gay e o activismo, proporcionado pela colaboração de Philippe Mangeot, presidente da ACT UP francesa nos anos 1990, na redacção do argumento.
O elenco jovem e carismático composto por nomes como Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois ou Adèle Haenel é outro dos pontos fortes do filme ou não se centrasse a película na vida dos activistas que compunham a associação.

Entre as assembleias em que se aborda a temática do VIH de um ponto vista social e a incursões na intimidade do personagem principal Nathan na sua relação com Sean, outro activista que conheceu nesta associação, o filme dá uma visão completa de uma realidade muito própria.
120 BPM (Batimentos Por Minuto), na tradução portuguesa, é, como o próprio nome indica, um filme cardíaco, que nos faz variar as pulsações com o modelar das emoções. Os limites do activismo numa vida, os limites da vida no activismo, os excessos e o seu preço são expostos neste filme sem um pingo de moralismo ou uma qualquer enfabulação da narrativa, resultando tão bem por isso.
Foi o candidato francês à nomeação para Melhor Filme Estrangeiro dos Óscares, mas acabou por não ser seleccionado, mas nem por isso o seu currículo é menos invejável. Além de ter sido o filme sensação da 70º edição do Festival de Cannes, onde arrecadou o Grande Prémio, o Prémio da Crítica e o Prémio Queer, 120 BPM (Beats Per Minute) venceu na categoria de Melhor Edição dos Prémios Europeus de Cinema e soma mais de cinco prémios para Melhor Filme Estrangeiro em festivais de cinema independentes pelo mundo fora. No início desta semana arrasou a concorrência nos Prémios Lumière, considerados os Globos de Ouro do cinema francês. Com seis nomeações, o filme de Robin Campillo ganhou tudo o que tinha para ganhar: melhor filme, melhor realizador, melhor actor (Nahuel Pérez Biscayart), melhor actor revelação (Arnaud Valois), melhor argumento (Campillo e Philippe Mangeot) e melhor banda-sonora (Arnaud Rebotini).