Os Respigadores e a Respigadora
Os Respigadores e a Respigadora

Os Respigadores e a Respigadora

Les Glaneurs et la Glaneuse

Áudio e legendas

Versão original com legendas

  • Áudio Francês
  • Legendas Português
realização

Agnès Varda

Nacionalidade

França

Ano de produção

1999

Sobre o filme

A partir de um célebre quadro de Millet, o filme de Agnès Varda é um olhar sobre a persistência na sociedade contemporânea dos respigadores, aqueles que vivem da recuperação de coisas (detritos, sobras) que os outros não querem ou deixam para trás. A respigadora nesse sentido é Agnès Varda, que, experimentando pela primeira vez uma pequena câmara digital, se quer assumir como uma “recuperadora” das imagens que os outros não querem ver nem fazer, e que portanto deixam para trás.

Realização e elenco

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8.0

"É previsível que não se vá ao cinema particularmente entusiasmado por um título como "Os Respigadores e a Respigadora". Má sorte ter sido adjectivo em vez de verbo: o termo "respigar" é, convenhamos, mais belo. Mesmo assim, é bom que se explique: respigar é o acto de apanhar as espigas após a colheita do trigo. Um termo que se perdeu algures no tempo e que o filme de Agnès Varda recupera, a par do gesto ancestral de recolher e aproveitar o que outros deitaram fora, buscando uma filiação na actualidade. E isso permite-lhe não só reencontrar os "descendentes" mais directos dos velhos respigadores, mas também os mais insuspeitados: respigar é uma actividade que existe tanto no campo como na cidade, mas no último caso, é mais provável que se diga "mendigo" em vez de "respigador". É justamente nesta ligação que "Os Respigadores e a Respigadora" adquire maior efeito, recompondo, rearranjando, propondo novos sentidos que vêem na recolha de batatas no campo e de legumes nos mercados da cidade o mesmo gesto. Se isso, só por si, já bastaria para confirmar a singularidade do documentário, Varda propõe um acordo, porventura mais difícil: a de se assumir como respigadora de imagens - de forma explícita, como na belíssima sequência em que a sua mão tenta "agarrar" os camiões na auto-estrada - e de si mesma, o que resulta numa espécie de auto-retrato fragmentado em que, curiosamente, não é o reconhecimento, mas a estranheza que desponta: "Sou um animal que não conheço", diz, observando a pele enrugada das mãos. Se a produção documental dos últimos anos se tem pautado pela sobreposição da narração individual à história colectiva e, nalguns casos, pelo relativo despudor em ultrapassar a fronteira entre ficção e documentário, o filme de Agnès Varda (que abriu os Encontros Internacionais de Cinema Documental, na Malaposta, no ano passado) estende ainda mais as possibilidades de exploração dessa linha ténue entre dois terrenos supostamente contrários, aliada à técnica. O pressuposto é documental - revelar os "respigadores" do ano 2000 -, mas o género "stricto sensu" é abalado por uma subjectivização do olhar, a que não é alheia a descoberta das potencialidades de uma mini-câmara digital."

Kathleen Gomes de Ípsilon - Público