Cavalo Dinheiro

Cavalo Dinheiro

Áudio e legendas

Versão Portuguesa

realização

Pedro Costa

Nacionalidade

Portugal

Ano de produção

2014

Género

Drama

Estreia no cinema

04-12-2014

Sobre o filme

Enquanto os jovens capitães fazem a revolução nas ruas, o povo das Fontaínhas procura o seu Ventura que se perdeu no bosque.

M14

Prémios
O meu estado de espírito...

Realização e elenco

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  • Luís Miguel Oliveira

    de Ípsilon - Público

    Cavalo Dinheiro é tudo menos “outro filme das Fontaínhas”. Pelo contrário, e mesmo se tudo o liga ao essencial da obra de Pedro Costa desde Ossos (e antes desse, a Casa de Lava, o filme “caboverdeano” que está na origem de toda esta série), é um “filme novo das Fontaínhas”. Nunca as Fontaínhas – ou o que resta delas – tinham servido para o que Cavalo Dinheiro faz. Se, por boas razões, de Ossos a Juventude a Marcha, passando pelas várias curtas-metragens que Costa foi fazendo com o mesmo universo, se tratava sempre de filmes “concêntricos”, geograficamente concêntricos, a primeira surpresa de Cavalo Dinheiro é o seu início, a sua abertura (com jogo de palavras e sem ele). A montagem de uma sequência de fotografias de Jacob Riis, retratando operários, biscateiros, sem-abrigo, da Nova Iorque de finais de século XIX, as casas onde vivem, os bares onde se divertem. Vemos vários Venturas – cada vez mais o único verdadeiro “ícone”, em todos os sentidos, do cinema português contemporâneo – naquelas imagens, e é impossível deixar de pensar em todos os “filhos” que ele procurava em Juventude em Marcha: mas aqui vemos os pais, os primos, os irmãos, de outra época e doutro lugar, um parentesco imaginário que fica a pairar sobre o filme e que o inscreve em algo mais vasto do que só a História portuguesa das últimas décadas. O filme tem, de resto, uma espécie de “intervalo”, sensivelmente a meio, para uma série de planos com figuras marginais ou estranhas à “narrativa” de Cavalo Dinheiro (e uma canção dos Tubarões em “off”), que directamente se ligam, entre a homenagem e o reconhecimento, a essa montagem fotográfica inicial. Mas também é o filme onde vemos Ventura na cidade – Ventura face às janelinhas iluminadas do Hospital de Santa Maria (soberbos planos onde “a noite tem mil olhos”), Ventura na Fonte Luminosa da Alameda, um plano ao lusco-fusco onde a combinação de auto-estradas, aviões a rasar e placards publicitários cria uma aparência de lugar sem sítio definido. O paradoxo – mas o filme é isto, uma constante deriva entre abertura e fechamento, sem nunca se esclarecer qual dos termos é mais ilusório – é que nunca Pedro Costa foi tão cavernoso, tão cheio de subterrâneos, escadarias íngremes, corredores estreitos, reais ou criados a partir do trabalho da iluminação (e eventualmente, da pós-produção, sendo certo que Cavalo Dinheiro puxa as possibilidades da imagem digital a um alcance nunca visto e que é, isso sim e de pleno direito, “vanguardista”). “Sweet Exorcist”, a curta-metragem incluída em Centro Histórico, revisitada em Cavalo Dinheiro (Ventura preso dentro do elevador) e por ordem cronológica de visibilidade a sua origem, já nos deixava a pensar no expressionismo no sentido da sua tradição cinematográfica, esse jogo com a projecção da interioridade das personagens a transmitir-se ao espaço circundante, a deformá-lo, distorcê-lo, defini-lo, inventá-lo. Cavalo Dinheiro é também isto, do princípio ao fim: um sonho, ou um pesadelo, de Ventura, onde nada (nem as outras personagens, como a espantosa Vitalina, primeira figura feminina depois de Vanda, ausente neste filme, a ser um “match” para Ventura) tem uma segura existência “real”, no sentido diegético do termo. Tudo são sombras e subterrâneos, ou tudo pode sair das sombras e dos subterrâneos, terreno fértil para a imaginação e para a sugestão, como acontecia nos filmes de Tourneur ou de Lang, velhas predilecções de Costa, e descendentes directos do expressionismo histórico, que Cavalo Dinheiro, tanto, mas tanto, faz lembrar de uma ponta a outra.

    10.0 10.0
  • Inês N. Lourenço

    de À Pala de Walsh

    Alguém me dizia, depois de ver o Cavalo Dinheiro (2014), que “o último filme dele é sempre melhor que o anterior”. Esta ideia, independentemente da expressão qualitativa, tem um enorme teor cumulativo, de vínculo imediato com uma referência anterior. E afirmar isto não é cair na facilidade teórica dos enunciados post-it “cada obra de um realizador é o seu crescimento enquanto autor” ou “sabemos que este é um filme de fulano de tal, porque esta maneira de filmar é muito na linha do que ele já fez”… De facto, se ne change rien, como diz o outro – o outro, que é um documentário de Pedro Costa com Jeanne Balibar, Ne Change Rien (2009) – é no sentido da construção e da sintaxe de um projecto, e esse projecto é algo que parte de uma consciência muito forte e artesanal de trabalho, baseado em rotinas, repetições, e sem desperdícios. Não terá sido por acaso que Pedro Costa recebeu o Leopardo de Melhor Realizador em Locarno por Cavalo Dinheiro. A unidade dos filmes, o plano, os seus planos são cada vez mais apurados, há uma economia crescente nas imagens que não se deixam inflacionar. Desvaloriza-se o dinheiro, fica o cavalo.

    9.5 9.5
  • Jonathan Romney

    de The Guardian

    Pedro Costa: Portuguese director who fashioned Gil Scott-Heron's film prayer With the dreamlike film Horse Money, Costa has returned to his most powerful and enduring subject: the Cape Verdean diaspora who inhabit Lisbon’s shadows. He explains how the project began as a collaboration with the US rapper and poet. In the world of independent film, nothing comes cheaper than talk of going guerrilla, of doing it all outside the system on minimal budgets. But Pedro Costa is one film-maker who can genuinely claim to do things differently. The Guardian’s Peter Bradshaw once described the Portuguese director as “the Samuel Beckett of cinema” – which certainly honours the austerity of Costa’s vision. But you could also call him cinema’s Vincent van Gogh – an artist who has turned his back on the worldlier ways of film to find an intense, troubling poetry in urban life at its most disadvantaged. Costa’s new film Horse Money is his latest to feature unemployed members of Lisbon’s Cape Verdean immigrant community, all playing themselves. Neither quite fiction nor documentary, Horse Money most resembles a dream, following the nocturnal wanderings of a man in his 70s, João Tavares Borges, aka Ventura. The film’s title may suggest a racetrack thriller, but a more literal translation of the Portuguese original Cavalo Dinheiro would be A Horse Named Money – Dinheiro being a horse that Ventura owned in his youth on the Cape Verde islands, the former Portuguese colony off north-west Africa. Ventura – a man with an imposing, somewhat priestly demeanour - previously starred in Costa’s Colossal Youth, a similarly poetic work that proved too severe for a large section of the Cannes audience when it played in competition there in 2006. “I’m sure you’ll never see a film like that in Cannes again,” chuckles Costa when he speaks to me on the phone from Lisbon.

    8.8 8.8
  • Scott Foundas

    de Variety

    Portugal's Pedro Costa returns to a familiar cast of characters for a hauntingly beautiful contemplation of his country's tumultuous past and uncertain future. The restless spirits of Portugal’s post-colonial underclass stumble dazedly though the wilds of “Horse Money,” the latest — and in some respects the most striking — of director Pedro Costa’s hallucinatory bulletins from the Lisbon slum known as Fontainhas. Already reduced to rubble at the time of Costa’s previous feature, the polarizing Cannes competition entry “Colossal Youth,” the Fontainhas of “Horse Money” exists only as memory and myth, its displaced residents — led once again by Costa’s non-pro muse, the septuagenarian construction worker known as Ventura — ever more adrift and further from home. Less overtly “difficult” than some of Costa’s work, “Horse Money” still lacks a traditional narrative structure and demands a patient, inquisitive audience, but the director’s cult of admirers has been growing (as evidenced by a Criterion DVD set of the first three Fontainhas features) and should continue to do so with this strange, hauntingly beautiful effort. Costa has been filming the people of Fontainhas for two decades now (since his third feature, “Ossos,” in 1997), burrowing ever deeper into their lives, adapting his filmmaking methods to their environs, and together with his subjects forging a new kind of poetic realism. And if “Horse Money” is unmistakably a continuation of Costa’s general line of inquiry, it also feels like a further refinement of his technique, from its comparatively taut running time (under two hours) to the shadowy expressiveness of the HD imagery. This is a movie of long, crypt-like corridors stretching toward infinity, and of screen-filling close-ups (shot by Costa and co-cinematographer Leonardo Simoes in the square Academy aspect ratio) that seem chiseled from the darkness, like living sculpture. The camera itself rarely moves, but when it does, it does so with urgency and purpose. For all the hard-gotten cultural specificity of Costa’s work, it also exudes a universal resonance, the sense that we might meet these same characters — or people like them — in any society where the false promises of democracy and capitalism have cut their swath. It is a point Costa drives home in the opening moments with a montage of black-and-white photographs by Jacob Riis, the great chronicler of New York’s 19th-tenement life and a photographer who, like Costa, gazed upon his subjects with dignity and a marked absence of pity. The movie then advances to a hospital, where we find Ventura among the patients — or, perhaps, the only patient — trudging through the empty hallways and clattering elevators in his bedclothes. A group of men — like Ventura, emigre laborers from the former Portuguese colony of Cape Verde — appear at his bedside and share their collective tales of woe, of lives ruined by poverty, crime and madness. But as with much of “Horse Money,” it is impossible to say whether these apparitions are flesh or mere fantasy. The rest of the film unfolds in a similar death-dream fashion, perched somewhere between Joyce and Proust, as Ventura traverses a seemingly endless night populated by the ghosts of his (and his country’s) past. At one point, he tells an inquiring doctor that he is 19 years old and has been brought to the hospital by the MFA, the Portuguese revolutionary army that instigated the country’s 1974 Carnation Revolution, which ended the long and costly African colonial war (and won Cape Verde its independence). And on at least one level, Costa’s film can be considered a mournful contemplation of how, in the span of four decades, Portuguese society transitioned from that halcyon moment to a bankrupt nation on the verge of becoming the next Greece.

    8.6 8.6