"É complicado avaliar a estrutura de uma trilogia pelo seu primeiro tomo, atenho-me, então, a este, já que é sobre ele que escrevo. As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto é estruturalmente o mais instável dos filmes de Miguel Gomes – uma maneira simpática de escrever que é uma confusão. Pegando num dos temas caros a Gomes, o seu clube do coração, arrisco uma analogia: a táctica para estas As Mil e Uma Noites como que foi dada pelo treinador Rui Vitória, tudo ao molho e fé em Xerazade. Se o filme funciona como uma boneca russa, em que cada parte esconde outra, Gomes (e Telmo Churro e Mariana Ricardo, restantes argumentistas) parece determinado em enfiar as bonecas maiores dentro das mais pequenas e em acrescentar outras que não encaixam em lugar algum. Compare-se este filme a Aquele Querido Mês de Agosto (2008), de que é uma espécie de versão megalómana e mastodôntica. No mais antigo, Gomes também jogava com a sua personagem indecisa, às voltas com a melhor maneira de prosseguir a obra. A razão era a falta de dinheiro para concluir a ideia inicial. Neste caso, é um impasse criativo, ditado pela quase total liberdade de movimentos. Em Aquele Querido Mês de Agosto, Gomes e a equipa de rodagem andavam à procura do filme, nas anedotas dos habitantes do interior de Portugal em choque com um certo cinismo urbano, na ficção engendrada nos arrebates da música pimba e nas vidas das pessoas tornadas personagens. Em As Mil e Uma Noites, lançam-se em fuga do seu próprio filme, o que acaba por servir apenas de dispositivo narrativo, um modo de enquadrar os diversos episódios que o compõem. Dispositivo, esse, que se revela absolutamente desnecessário, uma vez substituído pela ideia de Xerazade e das suas As Mil e Uma Noites. Mantém-se, é verdade, a demanda pela “portugalidade”, revelada nas histórias do galo e na dos adolescentes (o melhor episódio), protagonizadas por não-actores, filmadas on-location, expressão máxima do híbrido docuficcional. E não é por aí que As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto se perde: Gomes e companhia sobrevivem de novo à perigosa corda bamba para onde saltam, não deixando cair as personagens na caricatura, apesar do olhar citadino mais ou menos sobranceiro."