João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que eu Amei
João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que eu Amei
João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que eu Amei

João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que eu Amei

Áudio e legendas

Versão Portuguesa

realização

Manuel Mozos

Nacionalidade

Portugal

Ano de produção

2014

Estreia no cinema

08-10-2015

Sobre o filme

Uma homenagem ao cinema a pretexto da extraordinária vida de João Bénard da Costa, diretor da cinemateca portuguesa durante 18 anos mas também ator, cinéfilo, escritor inspirado e leitor criativo. Esta é uma inusual biografia que conta a vida do homem através dos seus amores, medos e contemplações, impressas na arte da pintura, do cinema e da literatura. Da pintura barroca à literatura de Borges, o filme é o amado diário de um homem universal.

Realização e elenco

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  • João Lameira

    de À Pala de Walsh

    “Fundamental é a vida. A vida continua sempre. É de vida que fala este filme de morte.” Estas palavras, ditas pela boca de João Bénard da Costa a respeito de um outro filme [julgo que Ta’m e guilass (O Sabor da Cereja, 1997) de Abbas Kiarostami], encerram o documentário de Manuel Mozos. O realizador usa-as para descrever (descobrir, descerrar) a sua obra. João Bénard da Costa: Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei (2014) é menos uma biografia de uma figura importante do que o luto pela morte de uma pessoa amada. Mais precisamente, é a (tentativa de) ressurreição do seu espírito. Um milagre do cinema, a vida para além da vida. A princípio, tomei o título, roubado ao poema Quando de Sophia de Mello Breyner, outro dos grandes fantasmas deste filme espectral, como referência à futura influência de Bénard da Costa, sobretudo através da palavra. (As passada e presente não são objecto do documentário, embora se possa afirmar que este é um expressivo testemunho da filiação de Mozos, que se filma a ver os “filmes da vida” dele.) Todo o trabalho de programação de Bénard, na Gulbenkian e na Cinemateca Portuguesa, celebrado por uns e contestado por outros, será porventura esquecido por quem não o viveu. Pelo contrário, os seus escritos – nas inúmeras crónicas para jornais (compiladas em livro pela Assírio & Alvim e agora pela Documenta), nos numerosos catálogos dos incontáveis ciclos que organizou, até mesmo como editor e redactor de O Tempo e o Modo, importante revista dos anos pré-Revolução – permanecerão enquanto houver quem ame o que ele amou. Aliás, a banda sonora de Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei vai sendo preenchida pela voz de João Pedro Bénard [o actor mais comovente do extraordinário episódio “Os Donos de Dixie” de As Mil e Uma Noites: Volume 2, O Desolado (2015) de Miguel Gomes] a ler excertos desses textos do pai (a escolha do narrador não é, obviamente, aleatória; dir-se-ia temática). Mozos traça o caminho que o espectador neófito mas interessado poderá descobrir, se nele quiser penetrar, como as crianças medrosas se perdiam nas densas florestas dos contos infantis. Contudo, revendo e reouvindo o filme, essa ideia de paternidade (mais prosaicamente, de influência) perde força (ainda que permaneça). O poema de Sophia e as palavras de Bénard da Costa procuram comunicar com quem nunca ouviu falar deles. Falam da sua ressurreição no corpo dos outros que amarão as coisas que eles amaram, principalmente nos que jamais os conheceram. Estranhamente (ou paradoxalmente), o documentário de Manuel Mozos parece destinado aos convertidos, àqueles que sabem de cor os temas de eleição de Bénard – a pintura, a religião, a Arrábida -, as circunstâncias da sua vida – como esteve para chumbar dois anos seguidos e depois foi professor no Liceu Camões, como foi director da Cinemateca quase vinte anos (na prática, quase trinta) – e as pequenas lendas que se construíram à sua volta – a de ter visto Johnny Guitar (1954) sessenta e tal vezes até 1988 (municiada pelo próprio). Desta forma, Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei fecha-se aos não-bénardianos. Recusando ser um documentário biográfico convencional, com cabeças falantes e/ou narração explicativa, como que toma o lugar do fantasma de Bénard da Costa, visitando (assombrando) os locais por onde este passou, os objectos em que pegou, as pinturas que olhou, os filmes que inventava de memória, levando o espectador fiel consigo. No entanto, pondo as coisas de outra maneira, abre-se ao mistério, à fé tão cara a Bénard. Mozos traça o caminho que o espectador neófito mas interessado poderá descobrir, se nele quiser penetrar, como as crianças medrosas se perdiam nas densas florestas dos contos infantis. Para que (est)a vida continue, é preciso obscurecê-la. Demasiada claridade mataria o desejo de conhecê-la. Sombra e luz. Luz e sombra. Como no cinema. Segundo Mozos, a obsessão de Bénard pela morte, a ressurreição, os fantasmas surge já nos escritos pueris de juventude (aos quais teve acesso), tornando-se óbvia para todos mais tarde. O realizador “aproveita-se” tão-só dela para estruturar o seu “filme de morte”. Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei volta e retorna a sequências de três filmes essenciais para entendê-la: Portrait of Jennie (O Retrato de Jennie, 1948) de William Dieterle, no qual uma aparição viaja no tempo para perturbar a vida (e obra) de um pintor; Ordet (A Palavra, 1955) de Carl Th. Dreyer, em que a força da fé tem o poder de ressuscitar os mortos. E The Ghost and Mrs. Muir (O Fantasma Apaixonado, 1947) de Joseph L. Mankiewicz, cuja protagonista se entrega a um falecido marinheiro, na vida e para além desta. No final desse filme, no final deste filme, uma porta fecha-se sobre a neblina do além-mundo, para onde Mrs. Muir e o fantasma apaixonado caminham de mãos dadas. O documentário segue atrás deles, quando a bobine acaba.

    9.0 9.0